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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

As minhas bonecas de papel

Guardava-as no fundo do roupeiro, dentro de um baú de folha marroquino, bem fechadinho com um cadeado, cuja chave andava sempre comigo. As minhas bonecas de papel.

Eu teria uns oito anos quando a minha mãe decidiu que já era demasiado crescida para brincar com bonecas… Por isso, dentro do quarto ficaram apenas as bonecas grandes, de decoração e aquelas com que eu brincava saíram para casa de outras meninas, algumas mais velhas que eu, mas cujas mães não se importavam de ter filhas que fossem crianças. Eu, não. Eu já era crescida, já tinha idade para aprender outras coisas mais úteis. E aprendi. Aprendi a limpar a casa, a passar a ferro, a estender roupa, a cozinhar, quer dizer, cozinhar já cozinhava há algum tempo, mas aperfeiçoei e comecei a tomar muitas vezes a responsabilidade do jantar da família.

Aprendi tudo que me quiseram ensinar. Aprendi a bordar, a tricotar, a fazer crochet, a pregar botões, a coser baínhas… Foi uma fase muito produtiva em matéria de aprendizagem.

Mas o meu coração continuava a ser de criança e por isso, bem escondidas no fundinho do meu roupeiro viviam as minhas bonecas de papel. Tinha várias e cada uma delas tinha um guarda-roupa muito completo. Tudo feito por mim, desde as bonecas, bem desenhadas e cheias de curvas, cuidadosamente coladas em cartolina, para serem mais resistentes, até às suas roupas, de verão, de inverno, de cerimónia, informais… Tudo muito bem desenhadinho, recortado e cuidadosamente pintado a lápis de cor, também muito bem arrumadinhos no fundo do roupeiro.

Quando a minha mãe trabalhava, na sua sala de costura, eu voltava silenciosamente a ser criança. E aproveitava religiosamente todos os minutos para brincar, vestir e despir as minhas preciosas bonecas, sempre muito atenta ao ruído da porta que indicava a presença da minha mãe. Era o momento de arrumar tudo rapidamente, voltar a pôr o baú no fundinho do roupeiro, colocar cuidadosamente as almofadas da cama por cima do baú, pegar num livro e sentar-me sossegada na cama a ler, uma actividade que sempre me fez muita companhia.

A minha mãe, apesar de se julgar muito esperta, nunca as descobriu, às minhas preciosas bonecas de papel. Continuei a brincar com elas até perto dos meus 11/12 anos, altura em que passei a ser mais fã de música, a ler cada vez mais, a cozinhar cada vez mais e a deixar de ter tanto tempo para elas. Ainda as mantive durante mais uns anos, tranquilas e felizes no seu baú, até que as substituí por um diário que me guardou tantas vivências, sentimentos, alegrias e mágoas durante toda a minha adolescência.

No outro dia, numa visita a um chinês, encontrei alguns livros com bonecas de papel e as suas respectivas roupas e relembrei as horas felizes a vestir e a despir, a desenhar, pintar e recortar. Relembrei a adrenalina de esconder tudo em questão de segundos ao menor ruído.

Estive quase, quase a comprar um dos livrinhos, só para recordar.

Tenho duas filhas, que brincaram até o desejarem com infinitas bonecas que viviam nos seus quartos, que ajudei a vestir e a despir vezes sem conta e a quem nunca disse que eram demasiado crescidas para o fazer. Na verdade até acho que os miúdos hoje em dia são crianças durante muito pouco tempo. É-lhes exigido tanto, tão cedo.

E é tão bom ser criança. É tão bom mantermos uma criança bem viva e feliz dentro de nós. E é tão importante termos essa capacidade.

A minha primeira morte

A minha avó ficou paraplégica muito nova, quando as minhas tias Emília e Isabel, era ainda miúdas, vítima de uma doença que nunca ninguém me soube explicar bem qual era. Ficou, não agarrada a uma cadeira de rodas, que o dinheiro não dava para tanto e nessa altura não havia estado social, mas a uma cadeirinha que o meu avô adaptou para ela e onde sempre me lembro de a ver quando ia ao Alentejo. Desde miúda sempre me disseram que eu tinha algumas coisas da minha avó Cecília (o nome que a minha mãe queria que eu tivesse e que o meu pai não deixou), coisa que sempre me deixou orgulhosa. Lembro-me de me sentarem ao colo dela e de ela me contar histórias, da sua infância, da infância dos meus tios, tias e da minha mãe, histórias de vida e com vida. Dessas histórias já não me lembro. Só me lembro dela e lembro-me sempre com muito carinho e com muita saudade. Eu teria uns quatro anos. Alguém foi lá a casa dar notícia de que a minha avó Cecília, a mãe da minha mãe estava a morrer. Nessa altura não havia a facilidade do telefone, era rara a casa que o tinha, a esse aparelho mágico que mudou a nossa vida e que passou a andar nos bolsos de todos nós. O meu padrinho ainda morava connosco, era solteiro, só mudou para a casa dele depois de casar. Fomos os três de comboio direitos a Castelo de Vide, a minha mãe, o meu padrinho Eusébio e eu, quatro anos de gente, com uma ideia muito vaga, mas mesmo muito vaga da morte. Que as pessoas iam para o céu, era o que me diziam, para junto do menino Jesus. Chegámos a casa do meu avô, o meu querido avô Álvaro, ainda a minha avó estava viva. Pediu para falar comigo e houve ali um sururu entre a minha mãe e as minhas tias e tios. Afinal eu só tinha quatro anos. Na altura não percebi o porquê de tanto alarido, era a minha avó que queria falar comigo. Qual era o problema? Entrei no quarto da minha avó e lembro-me da imagem dela deitada na cama antiga de ferro que, na altura, me parecia quase um arranha-céus de tão mínima que eu era. Alguém me ajudou a subir para a cama, dei um beijo à minha avó, senti a sua pele macia, de que ainda hoje guardo a recordação. A minha avó tinha uma missão para me confiar: “Filha, a avó vai morrer, tenho que te pedir uma coisa, para tomares conta do teu padrinho. Não o deixes voltar a entrar nas touradas, filha. Prometes que tomas conta dele?”. Claro que o prometi e senti logo ali que a morte era muito mais do que ir para o céu para o pé do menino Jesus, havia ali uma finitude que ninguém me queria esclarecer. A minha avó chamou o meu padrinho Eusébio e deu-lhe conhecimento da promessa que eu lhe tinha feito e ele aceitou ajudar-me a cumpri-la. E cumprimo-la, os dois, a pedido de uma das pessoas mais importantes das nossas vidas. O meu padrinho só voltou a entrar numa arena para retirar um amigo, colhido por um vitelo numa garraiada. Mas por ele, para ser ele a enfrentar o touro, nunca mais. A minha avó pediu-me um último beijo, foi mesmo o último… Voltei a sentir, pela última vez a sua pele macia, a carícia da sua mão na minha cara e vi pela última vez o rosto bonito da minha avó, de quem dizem que herdei os olhos verdes e as mãos compridas de unhas redondas. A morte da minha avó deu-se logo a seguir a este episódio. Hoje tenho a certeza que ela estava à minha espera, à espera de se despedir de mim, de me confiar a missão de cuidar do seu filho mais “maluco” para morrer. Mesmo que não seja verdade é nisso que quero acreditar. Como quero acreditar que morreu em paz, confiante que eu cumpriria a sua última vontade. Eu não acredito na vida depois da morte, nem nada dessas coisas, mas juro, que nos piores dias e nas piores noites, tenho a sensação do toque da mão da minha avó na minha cara. A maciez da sua pele volta a tocar-me e a dar-me o conforto que muitas vezes os vivos não me conseguem dar. Eu tinha quatro anos quando percebi que as pessoas quando morrem não vão para o céu, nem para ao pé do menino Jesus, não vão para lado nenhum, na verdade, continuam dentro de nós, nos nossos corações durante toda a nossa vida. Tenho 50 anos e há 46 que tenho a minha avó Cecília viva no meu coração e por cá continuará enquanto eu for viva.

A E. L. James é uma aldrabona do pior

Vamos lá então falar do novo livro de E.L. James - a suposta perspectiva da história “50 Sombras de Grey” do lado do sedutor e “dark” Mr. Grey.

Comecemos pelo facto de eu não gostar mesmo nadinha de me sentir enganada. E senti-me bastante depois de ler a porcaria do livrinho. Que não é bem um livrinho, são 595 páginas de “mais do mesmo”.

Ora bem, a senhora James parece-me ser uma mulherzinha muito esperta. Com aquele tipo de “esperteza saloia” que me irrita bastante. Ai e tal, toda a gente quer conhecer a história da perspectiva do Christian Grey? Ok, eu dou-vos a conhecer a história da perspectiva do homem. E deu… Quer dizer, mais ou menos...

E como? Ah pois, aí é que a coisa se torna mas negra… Perceberam os trocadilho?

Então ela pegou no primeiro volume da trilogia e limitou-se a reescrevê-lo na voz do Christian. Nem mais nem menos. Mentira, com mais 48 páginas do que o primeiro livro. Mas de resto, é igualzinho. Toda a transcrição da troca de mails, a minuta do contrato submissa/dominador, enfim, é igual.

Ou seja, é um engodo. Já nem falo da qualidade da escrita ou seja do que for a esse nível. Mas voltar a levar com a primeira vez da Anastasia, com o cerco que o Grey lhe fez, etc, etc, é um bocadinho de mais, não lhe parece senhora James?

Podia ter sido pelo menos um bocadinho original ter disfarçado, sei lá, qualquer coisa que levasse a que uma pessoa não tive vontade de ir devolver a porcaria do livro à loja.

É publicidade enganadora, senhoras. Não vale de todo a pena comprar. Mesmo.

Nada neste novo livro acrescenta seja lá o que for que já não soubessemos sobre Grey. 

 

Antiguidades, ternura, tias e marmelada

Gosto tanto de ser antiga. Gosto mesmo. Não é raro o meu marido virar-se para mim e dizer-me: “És muito antiga”. E ri-se no gozo comigo e com as minhas antiguidades.

Ele tem razão, eu sou mesmo antiga. Em muitas coisas. Nas canções, que gosto de ouvir e que me recordam um tempo em que eu ainda nem tinha nascido, na forma como faço a comida e como a tempero e naquela mania, muito minha, de fazer as minhas polpas de tomate, o tomate seco, as compotas, os doces e as marmeladas. Já para não falar dos bolos, dos biscoitos, enfim, de quase tudo.

É como eu costumo dizer: “Odeio comida pré-fabricada”. É que odeio mesmo. Sempre achei tão interessante ser eu a produzir os bolinhos de aniversário, os biscoitinhos, as bolachinhas de chocolate, os rissóis, os croquetes, o folar da Páscoa, os docinhos todos do Natal, tudo, tudo…

Adoro quando tenho pretexto para ir para a cozinha e ficar por lá horas a fio, às vezes dias, a produzir coisas, a confecionar petisquinhos e coisinhas e sentir à porta da minha casa o cheiro a antigamente.

Sabem aquele cheirinho da casa da avó? No meu caso era mais das tias, porque uma das minhas avós morreu quando eu tinha 4 anos e a outra nunca foi uma pessoa de quem fosse muito próxima. Mas as minhas tias, em especial a minha tia Matilde fez o favor de me deixar essa lembrança na memória.

Sempre que chegava a casa da minha tia começava por beber água no púcaro de alumínio que estava pendurado no quintal na torneira por cima do tanque de lavar a roupa. A melhor água do mundo, garanto. Um sabor especial o daquele púcaro. Não sei se ainda por lá anda…

E depois avançava para a cozinha da minha tia, uma cozinha com uma lareira alentejana onde o lume ardia e deitava calor a uma panela de barro assente em cima de uma trempe, onde fervilhavam feijões, couves, batatas, uma sopa com o melhor saborzinho do mundo, de que ainda hoje guardo o cheiro e o carinho com que era feita.

Também na casa da minha tia comi o melhor queijo fresco do mundo, apertado no cincho pelas mãos da minha tia que nunca pintou as unhas nem foi à manicure mas que tinha e continua a ter, certamente, das mãos mais bonitas do mundo.

Foi com ela que passei algumas das melhores tardes de verão, a brincar com pequenas forminhas em alumínio, julgo que da minha prima, a sentir cheiros e a comer coisas boas que guardei até hoje no coração.

Obrigada, tia Matilde (ti’à Matilde, como se diz na minha terra) por ter contribuído de forma tão decisiva para o meu stock de memórias boas. Guardo-as a todas com muito carinho.

Tenho mais tias, a minha querida tia Ana, que eu adoro, a minha madrinha Emília, que adoro também, a minha tia Isabel, a mais nova da ninhada e querida, querida, já para não falar que faz as melhores empadas de galinha do mundo e arredores, e ainda as tias adotadas, como a tia Laurinda e a minha madrinha Benvinda, e todas elas me mimaram quando era miúda, sempre que me apanhavam a jeito. Em casa de todas me senti sempre amada e mimada, muitas vezes até mais do que na minha e a todas agradeço por terem contribuído para me tornarem uma pessoa melhor e com muita bagagem boa dentro de mim.

Uma bagagem que tem sido tão importante e fundamental para manter a sanidade em algumas alturas da minha vida. Estou distante de todas, quase não as vejo, mas guardo-as no meu coração com a ternura que elas me transmitiram em criança.

 

Do baú das conversas com as minhas filhas

No outro dia em conversa com uma amiga que se queixava das coisas “más” que a filha de quatro anos e meio lhe diz quando se chateia com ela ou quando tem de lhe impor regras, lembrei-me de um dos muitos momentos com a minha filha mais velha.

Dizia-me a minha amiga que no auge de uma birra a filha lhe disse: “Qualquer dia vou-me embora desta casa”. E eu lembrei-me.

Estávamos a ter uma discussão, eu e a Sara, não me lembro sobre o quê, quando a pirralha, para aí com uns três anos se virou para mim, toda decidida e diz: “Quero-me ir embora desta casa”.

“Queres? Está bem. Anda lá que eu ajudo-te a fazer a mala. Vais para onde?”, perguntei-lhe.

“Vou para casa da avó”, que morava no andar de baixo, respondeu, toda cheia de estilo.

“Não, para casa da avó não pode ser, que a avó não pode ficar lá contigo, tens de ir para outro sítio qualquer”, fui-lhe dizendo enquanto lhe metia umas roupas numa mochila.

Abri-lhe a porta, dei-lhe a mochila e um beijinho e fiquei a vê-la a descer a escada, a olhar por cima do ombro para ver se eu a estava a ver ou se ia atrás dela. Fui-lhe dizendo adeus e quando ela acabou de descer a escada desci também para ver até onde ela ia. Ainda pôs a mão no puxador do portão para o abrir, mas depois começou a vacilar, sentou-se no degrau a fazer beicinho, com ar de quem não sabia muito bem o que fazer à vida.

Cheguei ao pé dela e disse-lhe: “Então não ias embora?”.

Pensam que ela deu o bracinho a torcer? Nem pensar nisso ou não fosse ela minha filha: “Acho que vou só amanhã. Esqueci-me de umas coisas…”.

Voltámos para casa, desfizemos a mochila e nunca mais falámos no assunto, mas também nunca mais me ameaçou que fugia de casa. Deve ter ficado a pensar no caso.

  

A propósito das malas femininas

Cá em casa é recorrente toda a gente me dar na cabeça porque as minhas malas (supermercados, como o meu marido lhes chama), são pesadíssimas e gigantes.

Ah, pois são! E esta gentinha (marido e filhas) estranham o quê?

Tudo começou quando nasceu a primeira filha. Sempre que saía precisava de levar toalhitas, água, uma muda de roupa, fraldas, e eventualmente, alguma comida, tipo bolachas, fruta, coisas afins. Como todas as mães comecei por ser muito organizadinha e levar, para além da minha mala e da miúda, um saco daqueles de bebé, cor-de-rosa, a condizer com a criança, onde levava tudo o que uma filha pode precisar, que inclui também alguns brinquedos, chuchas, etc.

Como nunca fui grande fã de carrinhos de bebé, se calhar porque não tinha jeito nenhum para abrir aquela geringonça, andar com uma filha, um saco, uma mala e às vezes mais uns sacos ao colo começou a revelar-se desastroso para as minhas costas e traumatizante em matéria de equilíbrio. Quando equilibrava a mala, caía o saco, quando equilibrava o saco, caía a mala e, felizmente, consegui que nunca caísse a criança, sabe Deus como…

Comecei a comprar umas malas maiores para conseguir levar tudinho e ter somente que equilibrar duas alças no ombro. As mochilas, de que fui adepta durante muito tempo, revelaram-se excelentes aliadas, excepto na hora de precisar de tirar a carteira, ou as toalhitas, ou um lenço, ou outra coisa qualquer e, muitas vezes não ter onde a pousar. Eu tive crianças no tempo em que as casas de banho públicas não tinham uma invenção maravilhosa a que chamam fraldário. A minha vida não foi fácil.

E tudo piorou quando nasceu uma segunda filha. As malas cresceram mais um bocadinho. Com a agravante de a segunda filha ser uma badalhocazita do pior quando era pequena. Entretanto cresceu e ficou uma criatura adorável e super asseadinha.

E conforme foram crescendo as coisas foram piorando. Passei por vergonhas de tirar Barbies da mala quando só queria tirar a carteira para pagar um café e nem tinha ao colo uma criança que justificasse a presença da loira escultural dentro da minha mala. Durante anos se virasse uma das minhas malas ao contrário era certinho que encontrava os sapatos de salto alto perdidos da Barbie, uma ou outra tiara, variadíssimos e originais ganchos de cabelo (duas filhas), elásticos, fitas, bandeletes, meias (?), chuchas, toalhitas, fraldas (nem sempre limpas), balões, brinquedos vários, roupa suplente de vários tamanhos e mais tarde cuecas com a Margarida, a Minnie, a Barbie, etc…

Se eu tivesse contabilizado todas as coisas estranhas que passaram pelas minhas malas desde que as minhas filhas nasceram… Cheguei a ter um gelado, embora tenha sido um acidente. Talvez não um acidente, mas uma das primeiras manifestações de que a minha filha mais nova ia ser uma miúda muito arrumadinha. “Vou guadar o gelado, mãe”. Mãe à beira da exaustão: “Está bem filha”. Mãe no dia seguinte quando meteu a mão na mala: “Mas que raio de porcaria é esta? O que é que estas duas meteram na minha mala?” Mãe lembra-se da conversa da tarde anterior. Mãe começa a pensar que emigrar é uma coisa que talvez seja boa para a sua saúde mental. Enfim…

Entretanto cresceram e agora usam as suas próprias malas, mas as suas necessidades em relação à minha mala não acabaram. Não senhor.

Agora é: “Mãe, tens creme? Tenho a pele seca”, “Mãe, tens base? Pareço uma morta”, “Mãe, tens toalhitas?, “Mãe, tens água?”, “Mãe, tens lenços?, “Mãe, tens…”. Seja lá o que for que precisem a minha mala continua a ser muito procurada.

Para além delas ainda tenho o meu marido: “Gracinha, tens lenços?”, “Gracinha, tens alguma coisa para limpar os óculos?”, “Gracinha, podes guardar-me a carteira e o telemóvel?”, “Gracinha…”. Ganhei outro necessitado do conteúdo das minhas malas.

E depois ainda existo eu. Eu preciso da carteira, de três pares de óculos (ler, ler de sol, de sol normais), de lenços, toalhitas, base, espelho… Eu sou mulher e preciso sempre de toneladas de coisas.

Até há pouco tempo as minhas malas eram o chamado “granel” e não o organizado. Era mesmo muito desorganizado. Entretanto fiz uma incursão num chinês e comprei três adoráveis (são mesmo adoráveis) bolsas de três tamanhos diferentes.

A maior leva coisas como amostras de cremes, estojo de costura miniatura, toalhitas para limpar os óculos (daquelas húmidas), adoçante, sal (?), pimenta (?), fósforos, palitos, tesoura, escova e pasta de dentes, pensos rápidos, lima de unhas, açúcar (?), etc.

O tamanho intermédio tem o pó compacto (imprescindível para quem tem a pele oleosa como eu), um espelho, um pequeno pincel, toalhitas desmaquilhantes e papel absorvente para peles oleosas. Ah e um baton, embora raramente o use.

A mais pequena tem comprimidos para a dor de cabeça e para as enxaquecas e outros que possam ser necessários em emergência.

Para além das três adoráveis bolsas, tenho toalhitas daquelas tipo refrescantes, lenços de papel, um leque (menopausa), as chaves de casa e do carro, a carteira (gigante, claro), um ou dois sacos de compras, vários papéis, o telemóvel e um pacote de pastilhas.

Isto é o básico, porque se for para algum sítio onde seja suposto andar muito, levo umas sabrinas na mala (geralmente uso saltos altos), eventualmente água e um livro. Agora imaginem o peso conjunto de tudo isto nas costas de uma pessoa.

Faz o que eu digo...

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... Não faças o que faço. Este parece ser cada vez mais o lema dos nossos governantes e afins.

No último sábado fui com as minhas filhas visitar o Jardim Botânico Tropical, em Belém, ali mesmo ao lado do Mosteiro dos Jerónimos.

Primeira tentativa de entrada - falhada. Não tinha dinheiro comigo e curiosamente não existe multibanco no JBT. “Irritei-me. “Vocês vivem na pré-história, ou quê? Mas onde é que raio não existe multibanco hoje em dia?”. Já sei, já sei. Tenho um mau feitio de cortar à pedrada. Temos pena. Convenhamos que em pleno século XXI é um bocadinho ridículo que a única forma de pagar seja com dinheiro. É que o valor nem era muito, nós éramos quatro e o total das entradas perfazia 8 euros, mas eu tenho o péssimo hábito de andar sem dinheiro. Desculpem lá, mas até o minimercado da minha rua tem multibanco e não nos torcem o nariz se quisermos pagar com ele. Gosto mesmo da minha rua.

Lá fui com os três jovens atrás em busca do multibanco mais próximo. Levantei dinheiro e voltámos.

Segunda tentativa: “Preciso de uma fatura se faz favor!” “Nós aqui não passamos faturas. Posso é passar-lhe uma fatura pró-forma (o exemplar acima, que na verdade não passa de uma folha a4, escrita à mão e assinada pelo funcionário da receção, sem qualquer tipo de validade legal, naturalmente). Depois enviam-lhe a fatura para a morada que nos indicar. Quer preencher o impresso?” “Naturalmente, preciso da fatura, é obrigatório pedir fatura, não é?”.

Estive uns bons cinco minutos a ver o funcionário a debater-se com os dados da futura fatura, que depois hei-de contar se e quando recebi. No final dobrou diligentemente a folhinha em 4 e entregou-ma.

Vamos lá a ver se nos entendemos - Então há quatro anos que este governo e os anteriores, mas este em especial, anda a moer-nos literalmente a cabeça e a paciência para pedirmos faturas em tudo o que e sítio, ameaçando toda a gente com as fugas fiscais e etc. E depois, quando uma pessoa vai visitar um espaço sob a alçada do governo, a primeira coisa que descobrimos é que quem devia dar o exemplo não está em condições de fazer cumprir as suas próprias leis. A sério? Como é que pretendem “educar” o povo?

Fiquei a pensar nos senhores lá do governo como aqueles pais que dão grandes lições de moral aos filhos, mas que depois falham nos exemplos quotidianos. Tipo: “Zézinho não tires macacos do nariz”. E depois vemos o pai do Zézinho ao volante do carro a limpar afincadamente o salão de baile enquanto o puto o observa sentado na cadeirinha, devidamente homologada pelas normas da CE, a pensar que tirar macacos do nariz deve ser um privilégio de adulto.

É a mesma coisa, salvo seja. Então como é possível que as mesmas pessoas que nos obrigam a estar atentos à fraude fiscal, que nos querem obrigar a pedir fatura até da bolinha de Berlim que comemos na praia, não consigam uma coisa tão simples como passar uma faturazinha de 8€ a uma mãe de família cumpridora das normas legais em vigor.

E depois admiram-se do meu mau feitio. Eh pá, desculpem lá, mas se continuam a provocar-me desta maneira até sou capaz de piorar de feitio.

Ah, já agora, o JBT é um sítio bem giro. Só é pena o Palácio dos Condes da Calheta não estar aberto ao público.

 

A primeira vez

Não, não é essa primeira vez. É a primeira vez que eu fui a uma entrevista de emprego. Era tão garota, tinha 19 anos. Não sabia nadinha de nadinha. Mas estava cheia de propósitos, projetos e força de vontade. Se calhar foi o que me safou.

Passei os três meses de verão enfiada numa escola a tirar um curso de “secretariado e práticas de escritório”, que habitualmente durava seis meses. Mas eu tinha pressa, tive sempre muita pressa na minha vida. Tinha acabado o 11º ano e queria começar a trabalhar o quanto antes. Precisava de me sentir independente, de não ter de dar explicações, de me sentir só um bocadinho mais livre. Eu nunca podia nada, festas de anos “mas quem é, nós não conhecemos”, idas ao cinema “nem penses que vais andar por aí feita vadia”, à noite “nem pensar. Era o que mais faltava”. E pronto, era a minha vida. Só saía com os meus pais ou, no máximo, com uma amiga, filha de amigos deles, mais velha e que portanto, tinha mais juízo. E foi sempre bom sair com ela, foi o que manteve alguma sanidade na minha vida.

Mas eu saí, não pensem que não saí. Tornei-me na rainha das desculpas - Trabalhos de grupo (escola não podiam dizer que não, não é?), mais trabalhos de grupo, aulas extras porque sim. Cheguei a alterar o horário no primeiro dia de aulas só para os fazer acreditar que tinha um horário mais sobrecarregado. Valia tudo para não ir para casa. E se me apetecesse ir podia sempre dizer que os professores tinham faltado. Nesse tempo ainda não tinham inventado as aulas de substituição.

Mas uma pessoa cansa-se de viver assim e começa a ficar fartinha de estar sempre a inventar, mesmo com uma imaginação prodigiosa como a minha.

Por isso resolvi que estava na altura de sair da escola e começar a ganhar o meu dinheiro. Estava mesmo fartinha daquilo. “Vais o quê? Deixar de estudar? Mas tu estás doida? Vais é para a faculdade tirar um curso para seres advogada”. Não sei porquê mas a minha mãe sempre achou que eu dava uma ótima advogada. Se calhar é só porque sou muito refilona e tenho sempre muitos argumentos. Não sei, nunca lhe perguntei.

Convenci a escola a deixar-me fazer o curso em metade do tempo. Tinha mesmo que despachar aquilo durante o verão, queria estar a trabalhar o mais rápido possível. Fiz o meu curso e terminei com uma nota muito próxima do 20. Nem foi difícil, estava a lutar pelos meus objetivos e sempre fui muito persistente. Tive tanta sorte. No dia a seguir ao final do curso, ligaram para a escola de uma empresa de Sacavém (eu morava perto de Alverca) e pediram uma pessoa despachada (eu), espevitada (EU), que tivesse acabado o curso com boa nota (eu) e que quisesse começar a trabalhar (eu). A experiência não era importante para eles, queriam ensinar a pessoa desde o início. Ligaram-me da escola a perguntar se eu estava interessada. Nem tinha telefone em casa, ligaram para casa de uma vizinha, que me chamou e lá me deram o recado. Deram-me o número de telefone para eu contactar a empresa. Liguei para lá logo de seguida: “Acha que pode vir cá amanhã para a conhecermos?”; “Posso ir hoje, dê-me só tempo para chegar aí”. Eu não tinha carta e morava quase no fim do mundo, mas lembrei-me que o meu pai estava de folga em casa e de alguma forma ia conseguir convencê-lo. Consegui. Lá nos metemos no carro e em menos de uma hora, lá estava eu, nervosa, nervosa, consciente que não sabia nadinha de nadinha, que nunca tinha estado numa entrevista de emprego… Controlei os nervos, toquei à campainha. Receberam-me os dois, um casal que eram os donos da empresa de som profissional, na avenida mais central de Sacavém. Ele gostou logo de mim, acho que percebeu logo que eu era despachadinha, ela teve algumas reticências. “Moras um bocadinho longe, vais chegar muitas vezes atrasada…”. Atrasada, eu? “Nunca”, garanti, “ a não ser que os transportes me falhem. Eu odeio chegar atrasada (até hoje). Acho que e uma grande falta de respeito para quem está à nossa espera”.

Ela continuava reticente e por isso arisquei: “Olhe, vamos fazer assim, contrata-me por um mês à experiência (acho que fui eu que inventei esta coisa da experiência), se eu chegar atrasada no final do mês manda-me embora e nem tem que me pagar. Parece-lhe bem?”. Ficou impressionada, vi nos olhos dela que ficou. O marido riu-se e disse-lhe: “Vês, eu sabia que era ela que nós estávamos à procura”. “Podes começar amanhã?”. “Posso começar hoje, se quiser, deixe-me só ir lá fora dizer ao meu pai para se ir embora”. Não foi preciso, ficámos para o dia seguinte. “Estás cá às 9 horas”. Estive lá às 8h20m. Tinha pavor de chegar atrasada.

24 de setembro de 1985 marcou a minha entrada no mundo do trabalho. Tão bom, estava tão feliz, tão cheia de vontade de aprender, de me tornar mais independente. Comecei a ganhar quinze contos, qualquer coisa como 75 euros. Era uma miséria de ordenado, mesmo naquela altura, mas eu também não sabia fazer nadinha e por isso, fiquei muito feliz. No primeiro dia mandei duas chamadas telefónicas para o espaço, não sabia funcionar com aquilo e era muita coisa nova para aprender. A minha primeira patroa, Lurdes, foi fantástica comigo. Ensinou-me muito do que sei sobre o funcionamento de uma empresa, de um escritório, sobre ser uma boa secretária. O resto das pessoas que lá trabalhavam eram todas mais ou menos da minha idade. Uma equipa muito jovem, trabalhavam na fábrica, ao lado do escritório. O Eng.º António José era uma espécie de génio, capaz de ir trabalhar de pijama, se a mulher não o mandasse vestir-se. Mas era muito inteligente, concebia todos os equipamentos, mesas de mistura, equalizadores, amplificadores, colunas de som, monitores de palco, etc, que eram produzidos na fábrica.

No último dia de setembro comecei a ver os meus colegas a entrarem no gabinete da Lurdes e a saírem com os seus envelopes na mão. Nessa altura ainda se recebia muito em dinheiro. Era bem mais interessante do que estas modernices das transferências bancárias. O dinheiro tinha outro valor. Eu não estava à espera de um envelope. Só tinha trabalhado seis dias e tinha um acordo de um mês. A Lurdes chamou-me e estendeu-me um envelope e um recibo para assinar. Fiquei a olhar para ela com cara de parva. “Assina miúda, que bem o mereces. Estás liberta do nosso acordo. Já percebi que tu só és novinha na idade, tens muito juízo nessa cabeça e tens-te portado muito bem”. Fiquei tão orgulhosa. De tudo. Das palavras dela e de receber o meu primeiro salário, dois contos e uns trocos, uns dez euros, por aí. Cheguei a casa com um sorriso de orelha a orelha. Comprei o meu passe para o autocarro e ara o comboio, comprei uma roupa nova e guardei o resto. Abri a minha primeira conta bancária, no BES, que nessa altura ainda se chamava BESCL (Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa) e comecei a depositar todos os meses um bocadinho do meu ordenado. Nessa altura conseguia poupar-se dinheiro.

Trabalhei na Acutron durante um ano e meio, mais ou menos. A empresa comprou novas instalações e mudou-se para mais longe e era quase impossível ir para lá sem transporte próprio. Um dos clientes, que ia ficar com as instalações antigas perguntou-me se queria trabalhar com ele e foi assim que transitei para outra empresa e conheci o Paulo, mas essa é toda uma outra história.

Tinha 19 anos

Tinha 19 anos.

Na loja de vestidos de noiva, a senhora, muito solícita, ia apertando a cada prova a cintura do vestido e repetia: “Parece que vai fazer a primeira comunhão. É tão miudinha”.

Tinha 19 anos.

Tinha começado a trabalhar em setembro e o casamento estava marcado para 28 de dezembro desse mesmo ano. O espelho devolveu-me a minha imagem. Fiquei a olhar para mim como se não me conhecesse. Onde estava o meu sorriso? A minha alegria? O brilho do meu olhar? Sempre me tinham dito que os meus olhos eram um livro aberto para a minha alma, que eram transparentes. Não me reconheci na imagem daquela miúda triste e desanimada que vestia um vestido de noiva, que parecia de primeira comunhão. Foi nesse momento que tomei a decisão de mudar as coisas. Já sabia que não ia ser fácil, mas tinha mesmo que ser. Foi aí que tudo começou a mudar.

Tinha começado a namorar com o F. com 14 anos durante as férias de verão no Alentejo. Ele era bem mais velho do que eu, acho que mais uns oito anos. Esse foi o verão da minha afirmação. Finalmente tinha deixado de usar óculos, cortei o cabelo, comprei roupas giras e senti-me, eu própria, muito gira. É um facto que a beleza também vem de dentro, ou então foi a minha recém descoberta autoconfiança que ajudou a que tudo acontecesse.

Conheci-o na aldeia, durante o verão. Ele fazia parte do grupo de amigos do meu primo. Não era muito alto, mas eu sou baixinha. Tinha olhos verdes e um ar engraçado. Também me deve ter achado piada e começámos a conversar e a trocar olhares. Descobri que tinha algum jeito para o jogo da sedução. Somos tão parvas com 14 anos. Antes do final do verão trocámos os primeiros beijos e as respetivas moradas. Nessa altura, estamos a falar de 1980, não havia telemóveis, a internet ainda não tinha sido inventada e nem toda a gente tinha telefone fixo em casa, por isso ainda se escrevia muito. Dei a morada da loja de uma amiga porque já sabia que os meus pais iam investigar quem era o tal que me andava a escrever. Infelizmente não contei com os pais da minha amiga. Demorei-me a ir buscar uma carta e a senhora, muito bem intencionada entregou-a à minha mãe. Um dia quando cheguei a casa estava o meu pai de carta, naturalmente aberta, em punho.

- Quem é este? De onde é que vocês se conhecem? Quais são as intenções dele contigo? De quem é que ele é filho?

Sei lá de quem é que ele é filho. O que é que isso interessa? Nem namorava com os pais dele… Intenções? Que intenções? Namorávamos, só isso.

- Namorar é para casar. Eu só namorei o teu pai. (Será?) Ele que fale connosco se quer namorar contigo. E a partir de hoje escreve cá para casa.

Informei o interessado, que mais velho, achou tudo muito bem. E não percebi onde me estava a meter, nem pouco mais ou menos.

Tenho que confessar que tive outros namorados. Nunca lhe fui fiel. Lamento, mas tinha 14 anos. E ele estava no Alentejo. Acho que na minha cabeça o namoro só era oficial quando eu lá ia. Começou a escola e descobri que as minhas mudanças davam na vistas. Tive muitos namorados nesse e nos anos seguintes. Ele continuava no Alentejo e continuávamos a namorar, por carta, claro, e sempre que eu ia ao Alentejo. Agora com a bênção parental.

Acho que nunca gostei verdadeiramente dele, era demasiado miúda. Nunca passámos de beijinhos e pouco mais. Nunca o deixei avançar muito, era muito púdica, dizia ele, eu simplesmente não tinha vontade de avançar mais. Já tinha lido muitos romances e achava que ainda não sentia o necessário por ele para avançar para coisas mais íntimas. É o que dá ler muitos livros, a pessoa fica com ideias…

Acabei o 11º ano e passei o verão a tirar um curso de “secretariado e práticas de escritório”, que me permitiu começar a trabalhar em setembro. Os meus pais, os dele e o próprio marcaram o casamento. Os pais deles deram-lhe o dinheiro para a entrada de um apartamento, um rés-do-chão com quintal a menos de cinco minutos da casa dos meus pais, e os meus pais mobilaram-no com uns móveis em “estilo antigo” absolutamente terríveis. Começámos (começaram, nem sei) a mandar convites, a escolher restaurantes, fotógrafos e o vestido de noiva…

Comecei a perceber o que estava a acontecer. Caí na real, como dizem os brasileiros. Caiu-me a ficha, como se diz agora.

Perdi o sorriso, a alegria, a vontade de tudo… No sítio onde eu trabalhava a minha patroa, uma pessoa fantástica começou a apertar comigo para lhe contar o que se passava. Contei-lhe tudo, mas tinha a sentença lida: “Se não te casares sais de casa”. E eu ganhava uma miséria e, convenhamos, continuava a ser uma miúda, tinha 19 anos. A minha filha mais nova tem agora 20 e não consigo imaginá-la nem perto de um altar. A minha patroa foi maravilhosa: “Se o teu pai te puser na rua, vais para minha casa até resolveres as coisas. Ajudas-me com as miúdas. Não ficas na rua, não te preocupes”. Ganhei coragem. As minhas colegas de trabalho também me ajudaram, aliás foi na casa de uma delas que me refugiei.

Falei com o noivo, disse-lhe que não conseguia continuar com aquela farsa, que não gostava dele, que era muito miúda, que ainda queria fazer muita coisa. Ficou violento, levantou-me a mão, tive de me defender, levantei um joelho, acertei-lhe num sítio delicado e fugi. Corri para minha casa, contei que me tinha tentado bater, perguntaram-me porquê e repeti a história: “Não consigo casar com ele, tenho nojo dele, não suporto que me toque, não aguento o cheiro dele, não gosto dele”.

Insultos, insultos, insultos, ameaças, ameaças e mais ameaças. “Casas a bem ou a mal. Não me vais envergonhar na minha terra, que nunca mais lá vou poder pôr os pés. O que é que vamos dizer às pessoas?”. As pessoas, sempre as pessoas, sempre os outros, muito mais importantes do que uma filha feliz ou infeliz.

As coisas pioraram e muito. No dia seguinte, esperei que a minha mãe saísse para a missa, provavelmente para pedir a Deus uma filha mais obediente e com menos vontade própria, e que o meu pai saísse para a tasca e saí também, com um saquinho pequenino, para não dar muito nas vistas, só com uma muda ou duas de roupa e fui direta a casa de uma das minhas colegas de trabalho. Chorei, chorei, já nem me lembro bem, já se passaram 30 anos. Fiquei lá apenas umas horas. Os meus pais fizeram uma pequena investigação e acabaram por me ir lá buscar.

Novas regras em casa: “A partir de agora se quiseres comer, compras a comida e cozinhas para ti (que novidade, desde os sete anos que fazia o meu almoço)”. O meu pai deixou de me falar a não ser que fosse para me insultar, a minha mãe andava mais ou menos na mesma. Mas o casamento ficou fora de hipótese. Menos mal.

Quando fomos começar a tirar as coisas ao tal apartamento de rés-do-chão com quintal, o F. apareceu e começou a insultar-me a mim e à minha mãe. Pela primeira, e acho que única vez na minha vida, o meu pai defendeu-me, mas se calhar foi só porque o meu tio estava lá e ele sentiu-se nessa obrigação. Ele ameaçou atirar coisas da chaminé para cima da minha mãe e eu atirei-lhe uma bela jarra de cristal à cabeça, que lhe abriu a testa. Ameaçou-me com uma queixa. Nem me incomodei a responder-lhe. Para quê?

O meu pai esteve uns dois anos sem ir ao Alentejo e a minha mãe foi lá comigo quando nasceu a minha afilhada, filha de uma irmã dela. Mas ficámos em casa da minha tia, não na nossa casa, demasiado central e exposta, e fomos a casa de um outro tio pelas ruas de “trás”, pelo meio dos campos. A minha mãe tinha vergonha e não queria “passar à porta dos pais dele”, que “não sei o que hei-de dizer às pessoas”, porque “tu só me fazes passar vergonhas”. Enfim.

Devolvi o vestido de noiva, o tal que parecia de primeira comunhão. Fiquei com um crédito na loja para futuras compras. Menos mal. Recuperei o sorriso e o brilho dos olhos.

As loiças, os tachos, os lençóis, as toalhas voltaram a ser arrumadas no sótão. Os móveis foram devolvidos e alguns transitaram para casa dos meus pais. Ainda hoje lá estão. Era de “estilo antigo”, de boa qualidade. “Já não se fazem móveis assim”. Ainda bem, são horríveis. E cheios de má energia.

Eu? Eu nunca tive vergonha de voltar ao Alentejo. Vergonha de quê? Não matei nem roubei ninguém. Não tenho que ter vergonha de querer ser feliz, pois não? Não sei se ele alguma vez casou. Cruzei-me uma ou duas vezes com ele depois disso, mas confesso que não senti qualquer remorso. Se não ultrapassou é porque é fraco de carácter e isso só dá mais razão à minha decisão de não querer casar com ele. Acho que nunca mais vi os pais dele, o que é curioso porque falamos de uma aldeia pequena onde toda a gente se conhece. Mas também não vou lá assim tanta vez.

Tinha 19 anos. Já se passaram 30 anos.

Quando percebemos que chegámos demasiado tarde...

O Facebook tem destas coisas. Encontramos pessoas que não conseguiríamos encontrar de outra forma. Pessoas com quem não falamos há muito tempo e de quem nos lembramos muitas vezes. Pessoas que fizeram parte da nossa vida nas piores alturas e de quem por um ou outro motivo acabámos por nos afastar, mas de quem não nos esquecemos e continuámos a gostar.

Há muito tempo que andava a tentar encontrar uma amiga que conheci há 20 anos num dos locais onde trabalhei. Criámos muito rapidamente uma empatia enorme e acabou por ser o meu porto de abrigo durante a fase complicada do meu divórcio. Quase que vivi em casa dela e sentia-me lá como em minha casa. A Rosa vivia com um irmão mais novo e juntos saíamos à noite, cozinhávamos (eu cozinhava), comíamos, conversávamos, brincávamos e divertíamo-nos muito. Na casa da Rosa chorei muito, ri muito, desabafei muito. Foi a minha casa de fim-de-semana durante muito tempo. Ia para lá às sextas-feiras depois do trabalho e saía na segunda-feira para ir trabalhar. No pior verão da minha vida, era o único sítio onde me sentia mais ou menos em paz.

Entretanto a Rosa começou a namorar um miúdo mais novo, engravidou, foi mãe, ficou doente com cancro de mama. Eu conheci o meu marido, mudei de casa e de vida e acabámos por ir perdendo o contacto, primeiro aos poucos e depois completamente.

Ontem encontrei o Facebook do irmão da Rosa e através dele, o dela. Enviei um pedido de amizade a ambos, respondido imediatamente por ele… Hoje de manhã, numa mensagem perguntei por ela - Faleceu. Em junho de 2013.

Acho que nunca me vou perdoar por não ter tentado encontra-la mais cedo, por ter deixado que a vida ou que fosse nos afastasse tão definitivamente. O não ter estado com ela quando precisou.

Desculpa Rosa. Desculpa ter estado longe, ter-me afastado, não ter acompanhado de perto a tua vida, não te ter procurado mais rapidamente. Desculpa.

 

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