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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Revistas Banquete

A maior parte nem deve saber do que eu estou a falar. Quando eu era miúda, mas mesmo muito miúda, ainda nem tinham inventado a internet, as receitas vinham em revistas. E nem eram revistas bonitas como as de agora, com fotografias fantásticas, papel de boa qualidade, etc. Eram a preto e branco, como a televisão e com umas fotos dos pratos que muitas vezes nem dava para perceber
bem do que se tratava, mas era o que havia.
Só mais tarde apareceu a Teleculinária que já era assim uma coisa muito sofisticada e de que tenho uma respeitável coleção.
A revista Banquete foi a minha primeira revista de culinária. Era feita sob a direcção culinária da Maria Emília Cancella de Abreu.
O meu pai trabalhava na antiga Cidla (uma das empresas que integrou a Galp - bolas sou mesmo antiga), e trazia para casa a Banquete.
Eu sempre fui uma miúda curiosa. Mesmo muito curiosa. E atrevida. E destemida. Por isso devia ter para aí uns 8 ou nove anos quando comecei a cozinhar com a Banquete. Afinal eles tinham uma secção que se chamava "Cozinha para Principiantes" e que se propunha ensinar o b-a-bá das coisas.
Isto tudo se passou para aí no inicio da década de 70. Imaginem!
Há uns meses atrás fomos, eu o meu "chatinho", a convite de um amigo muito querido, espreitar os livros que o pai lhe havia deixado. Entre esses livros, todos fantásticos, estavam três volumes encadernados da revista Banquete, que agora estão devidamente guardados na minha estante das preciosidades, aquela onde guardo os livros do coração. Sou mesmo sentimental.
Eu, que sou uma coisinha sensível, embora normalmente surja disfarçada de resmungona, juro que fiquei comovida.
As minhas perderam-se nos tempos e sucessivas mudanças de casa. E tenho-me lembrado muitas vezes delas.
E sem esperar voltei a encontrá-las. Foi um momento muito bom para mim. Ao folheá-las e ao sentir o cheiro do papel antigo, vi as primeiras receitas que me aventurei a fazer. As boas e as más experiências culinárias.
Lembro-me particularmente de um bacalhau com molho branco, que não correu nada bem. Enganei-me na medida do leite para o molho e ficou demasiado líquido. Não houve forno que secasse o raio do bacalhau.
E lembro-me do meu pai (esquisito com a comida como tudo), que, sem querer ferir o meu orgulho de cozinheira principiante e autodidata, só dizia: "Não está nada mau. Pena não estar mais sequinho!"
Note-se que o meu pai, como eu e toda a família, é alentejano. Nós ensopamos tudo com pão.
Ainda hoje tenho presente o esforço dele para não me desanimar em relação à cozinha. 
E ainda hoje me sinto agradecida por isso.

Mas também me lembro de algumas boas experiências como o meu primeiro bolo de ananás invertido, um maravilhoso bolo de nesperas que fiz a partir de uma receita da Banquete, a minha primeira tentativa de fazer uma tarte, enfim... Descobri massa tenra, massa folhada, molho bearnaise, molho tártaro. Aprendi muito com a Senhora Dona Maria Emília Cancella de Abreu e com a Banquete. Estava sempre ansiosa pelo próximo número. Era uma revista absolutamente deliciosa e ainda me recordo da emoção de folhear os novos números e decidir logo o que queria experimentar. Que longe estão esses tempos agora, em que uma receita está à distância de ums procura no google. Sem saudosismos, não é bem a mesma coisa. É mais rápido? É. é mais prático? É. Mas é tão saboroso como era? Não, lamento, mas o cheiro do papel continua a dizer-me muito. As minhas receitas mais preciosas estão escritas à mão num caderninho A5. Hábitos de pessoas antigas.

Entretanto já aprendi a fazer molho branco entre muitas outras coisas. Em comum com a garota de nove anos continuo
a ter a curiosidade e o atrevimento. Felizmente.

(publicado originalmente em setembro de 2011)

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