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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

As minhas bonecas de papel

Guardava-as no fundo do roupeiro, dentro de um baú de folha marroquino, bem fechadinho com um cadeado, cuja chave andava sempre comigo. As minhas bonecas de papel.

Eu teria uns oito anos quando a minha mãe decidiu que já era demasiado crescida para brincar com bonecas… Por isso, dentro do quarto ficaram apenas as bonecas grandes, de decoração e aquelas com que eu brincava saíram para casa de outras meninas, algumas mais velhas que eu, mas cujas mães não se importavam de ter filhas que fossem crianças. Eu, não. Eu já era crescida, já tinha idade para aprender outras coisas mais úteis. E aprendi. Aprendi a limpar a casa, a passar a ferro, a estender roupa, a cozinhar, quer dizer, cozinhar já cozinhava há algum tempo, mas aperfeiçoei e comecei a tomar muitas vezes a responsabilidade do jantar da família.

Aprendi tudo que me quiseram ensinar. Aprendi a bordar, a tricotar, a fazer crochet, a pregar botões, a coser baínhas… Foi uma fase muito produtiva em matéria de aprendizagem.

Mas o meu coração continuava a ser de criança e por isso, bem escondidas no fundinho do meu roupeiro viviam as minhas bonecas de papel. Tinha várias e cada uma delas tinha um guarda-roupa muito completo. Tudo feito por mim, desde as bonecas, bem desenhadas e cheias de curvas, cuidadosamente coladas em cartolina, para serem mais resistentes, até às suas roupas, de verão, de inverno, de cerimónia, informais… Tudo muito bem desenhadinho, recortado e cuidadosamente pintado a lápis de cor, também muito bem arrumadinhos no fundo do roupeiro.

Quando a minha mãe trabalhava, na sua sala de costura, eu voltava silenciosamente a ser criança. E aproveitava religiosamente todos os minutos para brincar, vestir e despir as minhas preciosas bonecas, sempre muito atenta ao ruído da porta que indicava a presença da minha mãe. Era o momento de arrumar tudo rapidamente, voltar a pôr o baú no fundinho do roupeiro, colocar cuidadosamente as almofadas da cama por cima do baú, pegar num livro e sentar-me sossegada na cama a ler, uma actividade que sempre me fez muita companhia.

A minha mãe, apesar de se julgar muito esperta, nunca as descobriu, às minhas preciosas bonecas de papel. Continuei a brincar com elas até perto dos meus 11/12 anos, altura em que passei a ser mais fã de música, a ler cada vez mais, a cozinhar cada vez mais e a deixar de ter tanto tempo para elas. Ainda as mantive durante mais uns anos, tranquilas e felizes no seu baú, até que as substituí por um diário que me guardou tantas vivências, sentimentos, alegrias e mágoas durante toda a minha adolescência.

No outro dia, numa visita a um chinês, encontrei alguns livros com bonecas de papel e as suas respectivas roupas e relembrei as horas felizes a vestir e a despir, a desenhar, pintar e recortar. Relembrei a adrenalina de esconder tudo em questão de segundos ao menor ruído.

Estive quase, quase a comprar um dos livrinhos, só para recordar.

Tenho duas filhas, que brincaram até o desejarem com infinitas bonecas que viviam nos seus quartos, que ajudei a vestir e a despir vezes sem conta e a quem nunca disse que eram demasiado crescidas para o fazer. Na verdade até acho que os miúdos hoje em dia são crianças durante muito pouco tempo. É-lhes exigido tanto, tão cedo.

E é tão bom ser criança. É tão bom mantermos uma criança bem viva e feliz dentro de nós. E é tão importante termos essa capacidade.

A minha primeira morte

A minha avó ficou paraplégica muito nova, quando as minhas tias Emília e Isabel, era ainda miúdas, vítima de uma doença que nunca ninguém me soube explicar bem qual era. Ficou, não agarrada a uma cadeira de rodas, que o dinheiro não dava para tanto e nessa altura não havia estado social, mas a uma cadeirinha que o meu avô adaptou para ela e onde sempre me lembro de a ver quando ia ao Alentejo. Desde miúda sempre me disseram que eu tinha algumas coisas da minha avó Cecília (o nome que a minha mãe queria que eu tivesse e que o meu pai não deixou), coisa que sempre me deixou orgulhosa. Lembro-me de me sentarem ao colo dela e de ela me contar histórias, da sua infância, da infância dos meus tios, tias e da minha mãe, histórias de vida e com vida. Dessas histórias já não me lembro. Só me lembro dela e lembro-me sempre com muito carinho e com muita saudade. Eu teria uns quatro anos. Alguém foi lá a casa dar notícia de que a minha avó Cecília, a mãe da minha mãe estava a morrer. Nessa altura não havia a facilidade do telefone, era rara a casa que o tinha, a esse aparelho mágico que mudou a nossa vida e que passou a andar nos bolsos de todos nós. O meu padrinho ainda morava connosco, era solteiro, só mudou para a casa dele depois de casar. Fomos os três de comboio direitos a Castelo de Vide, a minha mãe, o meu padrinho Eusébio e eu, quatro anos de gente, com uma ideia muito vaga, mas mesmo muito vaga da morte. Que as pessoas iam para o céu, era o que me diziam, para junto do menino Jesus. Chegámos a casa do meu avô, o meu querido avô Álvaro, ainda a minha avó estava viva. Pediu para falar comigo e houve ali um sururu entre a minha mãe e as minhas tias e tios. Afinal eu só tinha quatro anos. Na altura não percebi o porquê de tanto alarido, era a minha avó que queria falar comigo. Qual era o problema? Entrei no quarto da minha avó e lembro-me da imagem dela deitada na cama antiga de ferro que, na altura, me parecia quase um arranha-céus de tão mínima que eu era. Alguém me ajudou a subir para a cama, dei um beijo à minha avó, senti a sua pele macia, de que ainda hoje guardo a recordação. A minha avó tinha uma missão para me confiar: “Filha, a avó vai morrer, tenho que te pedir uma coisa, para tomares conta do teu padrinho. Não o deixes voltar a entrar nas touradas, filha. Prometes que tomas conta dele?”. Claro que o prometi e senti logo ali que a morte era muito mais do que ir para o céu para o pé do menino Jesus, havia ali uma finitude que ninguém me queria esclarecer. A minha avó chamou o meu padrinho Eusébio e deu-lhe conhecimento da promessa que eu lhe tinha feito e ele aceitou ajudar-me a cumpri-la. E cumprimo-la, os dois, a pedido de uma das pessoas mais importantes das nossas vidas. O meu padrinho só voltou a entrar numa arena para retirar um amigo, colhido por um vitelo numa garraiada. Mas por ele, para ser ele a enfrentar o touro, nunca mais. A minha avó pediu-me um último beijo, foi mesmo o último… Voltei a sentir, pela última vez a sua pele macia, a carícia da sua mão na minha cara e vi pela última vez o rosto bonito da minha avó, de quem dizem que herdei os olhos verdes e as mãos compridas de unhas redondas. A morte da minha avó deu-se logo a seguir a este episódio. Hoje tenho a certeza que ela estava à minha espera, à espera de se despedir de mim, de me confiar a missão de cuidar do seu filho mais “maluco” para morrer. Mesmo que não seja verdade é nisso que quero acreditar. Como quero acreditar que morreu em paz, confiante que eu cumpriria a sua última vontade. Eu não acredito na vida depois da morte, nem nada dessas coisas, mas juro, que nos piores dias e nas piores noites, tenho a sensação do toque da mão da minha avó na minha cara. A maciez da sua pele volta a tocar-me e a dar-me o conforto que muitas vezes os vivos não me conseguem dar. Eu tinha quatro anos quando percebi que as pessoas quando morrem não vão para o céu, nem para ao pé do menino Jesus, não vão para lado nenhum, na verdade, continuam dentro de nós, nos nossos corações durante toda a nossa vida. Tenho 50 anos e há 46 que tenho a minha avó Cecília viva no meu coração e por cá continuará enquanto eu for viva.

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