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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

A importância de um bom salto alto

Os saltos altos entraram na minha vida por volta dos dezoito anos na mesma altura em que eu entrei no mercado de trabalho.

Até aí, eu era uma adolescente mais ou menos igual a tantas outras da década de oitenta que usava calças de ganga tão justas que precisava de me deitar para as abotoar, camisolas ou camisas do meu pai, com cinto na anca para dar algum estilo e ténis Cross ou Sanjo, dependendo das ocasiões. No verão abria umas excepções para umas saias compridas e rodadas o quanto baste, para ninguém perceber que eu era um esqueleto ambulante e sandálias de tirinhas completamente rasas. Está resumido o meu guarda-roupa da época.

Aos dezanove anos completei um curso de datilografia especializada e práticas de escritório que me manteve ocupada uma boa parte do verão e comecei a trabalhar no dia 24 de setembro de 1985, um dia glorioso de que nunca me hei-de esquecer. Estava dado o primeiro passo para a minha tão desejada independência.

Quando comecei a trabalhar esgotei rapidamente as poucas saias de que dispunha e, calças, no meu roupeiro, só de ganga, impróprias para escritório, mesmo tratando-se de um sítio descontraído como era o caso. Mas eu tinha sido contratada como secretária de direção e sempre gostei de levar as coisas a sério. Digam lá o que disserem ninguém leva muito a sério uma secretária de ténis, certo?

Comecei a folhear umas revistas e percebi que umas saias a que agora chamam lápis, e que na altura eram simplesmente  saias travadas, uns sapatinhos com algum estilo e umas camisas me faziam alguma falta.

Por isso fiz um investimento em tecidos com o primeiro ordenado, eu ganhava assim 17 contos e quinhentos, que traduzido em euros não chega a 100, mas que bem esticadinho deu para muita coisa. Valeu-me o facto de a minha mãe ser costureira e não me cobrar o feitio, claro.

Mas ainda hoje sou uma excelente compradora de roupa a baixo custo. E não estou a brincar, tenho mesmo olho para as peças e para conseguir boas compras de vestuário e de sapatos que são uma das minhas taras.

Comecei a surgir no escritório com um ar menos gaiata e mais senhorita e calcei os meus primeiros saltos, pequeninos, para aí com 4/5 centímetros, no máximo, por volta dessa altura. Ainda me lembro, eram nude, como agora se diz, mas que na altura eram simplesmente cremes e tenho pena de não os ter guardado. Foram os pioneiros de uma bela coleção de varíadissimos modelos e cores.

Os primeiros dias nos saltos foram um tormento. Está bem eu sei que eles eram baixinhos, especialmente para quem agora usa saltos de 12 e 13 centímetros e os considera mais confortáveis do que sabrinas, mas na altura passei por um período de adaptação.

Gradualmente os saltos começaram a aumentar de altura. O facto de o meu primeiro casamento ter sido com um homem que tem mais de 1,80m também ajudou. Eu sou pequenina, tenho 1,60m assim para o lado do mal medido e francamente acho indecente que o mundo esteja configurado para gente grande, mas agora já me habituei. Até porque raramente saio à rua com menos de 1,70m. Sou eu mais os saltos, certo?

Os sapatos mais altos que tenho comprei-os este ano para um casamento e são tipo Victoria Beckham, ou pelo menos é assim que o meu marido, já não é o de 1,80m, este é mais baixinho, mas muito menos parvo, lhes chama. São maravilhosos, pretos, em verniz e com salto tipo agulha em metal dourado escuro, sola compensada e são do mais confortável que pode haver. Não, não estou a brincar! São mesmo confortáveis.

No dia do casamento em que os usei pela primeira vez, meti dentro do carro, à cautela, uns sapatinhos já mais usados dentro de um saco, não fossem os Victoria Beckham serem difíceis de domesticar.

Sei que andei o dia todo em cima deles, dancei e não foi pouco e cheguei a casa linda e maravilhosa com os meus sapatos maravilhosos calçados, tranquila e sem dores nos pés.

Os saltos tornaram-se parte de mim e a prová-lo está a tarde de sexta feira passada. Fui com as minhas filhas para as compras ao Dolce Vita Tejo, que, como sabe quem conhece é gigantesco e de onde é quase impossível sair sem dores por todo o lado.

Pensei que talvez não fosse boa ideia ir de salto alto e por isso calcei umas sabrinas, o que se revelou um erro crasso.

No carro tinha uns sapatos de salto que precisam de capas e andam no carro à espera que eu encontre um sapateiro, e calcei-os para conduzir, que é uma coisa que odeio fazer sem saltos. Não sei bem explicar mas normalmente o resultado é que não consigo fazer ponto de embraiagem e tenho tendência a deixar o carro ir abaixo. Com os saltos corre sempre tudo bem, por isso calcei os sapatinhos de salto para conduzir e por lá andei de sabrina.

Ao fim de duas ou três horas estava cheia de dores, nos pés, nas pernas, nas costas, enfim um bocadinho por todo o lado.

Quando regressei ao carro e voltei a calçar os meus belos saltinhos posso jurar que ouvi os meus pés suspirarem de alívio. A sério que ouvi. Foi uma sensação de alívio tão grande. Os meus pés voltaram à sua posição normal e não ao desconforto de não terem quase nada entre si e o chão. A sério que não sei como é que alguém pode dizer que as sabrinas são confortáveis. Eu só para bocadinhos pequeninos e para percursos curtos. Assim para ir comprar os jornais e o pão de manhã. De resto, nem pensar.

Os saltos para mim só têm um problema. Este país é cheio de buracos. A calçada portuguesa, que é linda, é do pior que há para pessoas como eu. Arruina-me os sapatos todos e deixa-me à beira das lágrimas sempre que olho para os meus queridos saltos.

Senhores governantes, presidentes de Câmaras ou responsáveis pelos passeios portugueses, pensem nas mulheres.

Experimentem andar de saltos nas calçadas e comecem a tratar melhor os buraquinhos das mesmas.

E pensem, todas as mulheres são mais sensuais montadas num belo salto alto. E suponho que ninguém está interessado num país de mulheres pouco sensuais, certo?

Fútil, eu? Não, baixinha! E farta de olhar o mundo de baixo para cima...

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