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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Chegou o dia. Sim o da mãe também, mas este é outro

Não é que eu não estivesse à espera. Estava. Agora, preparada? Honestamente pensei que estava. Adivinhem? Não estava.

Estou a falar de quê? Lembram-se do post em que falei do workshop de cozinha vegana e da iminência da notícia por parte da minha filha mais velha de que ia deixar de comer as poucas coisas que ainda comia de origem animal, tipo ovos, leite, queijo, etc.?

O dia chegou e foi ontem. Ela chegou para passar o fim de semana e teve uma conversa comigo para me avisar que para além do que ainda existe em stock não vai comer mais ovos, leite, iogurtes, queijo, massas com ovos, mel, etc.

Eu juro que estava à espera. Sabia que o dia ia chegar. Tenho pesquisado o suficiente para saber que faz parte de um processo natural nas pessoas que tomam a opção dela em termos alimentares. Mas não estava preparada. Mesmo nada.

Acho que a minha filha está a tomar uma opção que lhe vai dificultar e muito a vida. Que de alguma forma a vai deixar sempre de fora de muitas coisas. É muito estranho estarmos todos sentados à mesa e ela ser a única que come alguma coisa que não se parece com comida. Que não tem sabor, não tem nada em comum com o resto das pessoas sentadas à mesa.

Eu amo a minha filha de paixão e tenho muito, mas muito medo que a vida dela vá passar a ser de exclusão. E não, não estou a exagerar. A maior parte das pessoas veganas que eu conheço são um bocado “outsiders”, vivem um bocadinho à margem. De certa forma excluem-se porque preferem não conviver com “assassinos de animais”.

Eu acho muito sinceramente que a minha filha está a escolher um caminho que a vai tornar profundamente infeliz e eu não quero de todo que ela seja infeliz.

Vejo-a comer as coisas dela mas sem prazer. A comida dela raramente sabe a alguma coisa decente, embora ela diga sempre que sim e se calhar para ela é tudo normal. E faz-me uma confusão.

Quando ela me disse não consegui evitar e chorei, chorei. Tão estúpida, que eu sou. Só queria apoiá-la, mas não consegui evitar.

Acho que ela se está a afastar cada vez mais de nós. A comida é um dos veículos de união familiar. O estar à mesa, o conversar, partilhar ideias, discutir teorias. Tudo isso sempre fez parte dos nossos hábitos. Eu adoro cozinhar e essa sempre foi uma forma de manifestar o meu amor pelos meus. O que sinto é que a minha filha já não precisa de mim, que me está a afastar da sua vida. É estúpido, eu sei, mas é o que eu sinto e não consigo evitar. E lá estou eu a chorar outra vez.

O fim de semana não está a ser fácil, o processar toda esta informação. A ideia de que nunca mais a minha filha vai comer uma bolacha, uma fatia de bolo, um bombom, ok são coisas que não temos necessidade de comer todos os dias, mas de vez em quando… Uma patanisca, um peixinho da horta, um ovo verde… Nada.

Desta vez acho que nem escrevendo consigo definir bem o que sinto, mas sei que tenho uma tristeza imensa dentro de mim, que não consigo afastar e que não queria de todo deixar transparecer para ela. Nunca vou deixar de apoiar a minha filha, mas é-me muito difícil perceber esta opção. Muito. Porque é que alguém que adora queijo se vai privar disso para o resto da vida? Porque é que ela sente que tem de se castigar? Que culpa é que a minha filha acha que carrega com ela?

“Preciso de me sentir bem com a minha consciência”. Mas porquê? De que é que ela é culpada?

Alguém que por favor faça um workshop para mães que de repente são confrontadas com isto, porque neste momento dava-me muito jeito. Mesmo.

Não sei se consigo estar sentada na mesa da minha num qualquer restaurante e vê-la comer um prato de arroz com salada enquanto nó comemos comida de gente. Não sei mesmo. Mas acho que vou desabar. Tenho quase a certeza.

Hoje é o dia da mãe e o último em que ela vai sentar-se comigo num restaurante e pedir uma coisa sem evitar o queijo ou os ovos.

Eu quero perceber, quero muito, mas não consigo.

Estou a dramatizar? Estou nitidamente. Mas neste momento não consigo fazer mais nada. O cenário que consigo ver à minha frente não tem mesmo nada de cor de rosa.

4 de maio de 2014 não é um bom dia mãe. É meio bom dia da mãe. A outra metade chora e chora e chora…

Vou precisar de tempo. Mas pelo que me parece, muito tempo.

E como é que vai ser quando ela começar a trabalhar e tiver um almoço de negócios, ou um jantar, por exemplo? Vai ser a “estranha” que come um pratinho de alface num restaurante de bifes, ou de peixe, ou de massas ou seja do que for?

E quando tiver filhos? Vou ter netos infelizes que não podem comer a bolachinha, o iogurte, o queijo, o peixe, a carne, os douradinhos? Será que ela vai torturar as crianças com isto? Vai deixá-las crescer a pensar que são culpadas de todos os males da humanidade?

Eu quero poder alimentar os meus netos como todas as avós, quero fazer bolachas com eles na minha cozinha, quero mimá-los até à exaustão, quero vê-los felizes e não frustrados porque são “diferentes” de toda a gente.

E se toda a gente deixasse de comer carne e peixe, o mundo ficava melhor?

 

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