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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

A minha primeira morte

A minha avó ficou paraplégica muito nova, quando as minhas tias Emília e Isabel, era ainda miúdas, vítima de uma doença que nunca ninguém me soube explicar bem qual era. Ficou, não agarrada a uma cadeira de rodas, que o dinheiro não dava para tanto e nessa altura não havia estado social, mas a uma cadeirinha que o meu avô adaptou para ela e onde sempre me lembro de a ver quando ia ao Alentejo. Desde miúda sempre me disseram que eu tinha algumas coisas da minha avó Cecília (o nome que a minha mãe queria que eu tivesse e que o meu pai não deixou), coisa que sempre me deixou orgulhosa. Lembro-me de me sentarem ao colo dela e de ela me contar histórias, da sua infância, da infância dos meus tios, tias e da minha mãe, histórias de vida e com vida. Dessas histórias já não me lembro. Só me lembro dela e lembro-me sempre com muito carinho e com muita saudade. Eu teria uns quatro anos. Alguém foi lá a casa dar notícia de que a minha avó Cecília, a mãe da minha mãe estava a morrer. Nessa altura não havia a facilidade do telefone, era rara a casa que o tinha, a esse aparelho mágico que mudou a nossa vida e que passou a andar nos bolsos de todos nós. O meu padrinho ainda morava connosco, era solteiro, só mudou para a casa dele depois de casar. Fomos os três de comboio direitos a Castelo de Vide, a minha mãe, o meu padrinho Eusébio e eu, quatro anos de gente, com uma ideia muito vaga, mas mesmo muito vaga da morte. Que as pessoas iam para o céu, era o que me diziam, para junto do menino Jesus. Chegámos a casa do meu avô, o meu querido avô Álvaro, ainda a minha avó estava viva. Pediu para falar comigo e houve ali um sururu entre a minha mãe e as minhas tias e tios. Afinal eu só tinha quatro anos. Na altura não percebi o porquê de tanto alarido, era a minha avó que queria falar comigo. Qual era o problema? Entrei no quarto da minha avó e lembro-me da imagem dela deitada na cama antiga de ferro que, na altura, me parecia quase um arranha-céus de tão mínima que eu era. Alguém me ajudou a subir para a cama, dei um beijo à minha avó, senti a sua pele macia, de que ainda hoje guardo a recordação. A minha avó tinha uma missão para me confiar: “Filha, a avó vai morrer, tenho que te pedir uma coisa, para tomares conta do teu padrinho. Não o deixes voltar a entrar nas touradas, filha. Prometes que tomas conta dele?”. Claro que o prometi e senti logo ali que a morte era muito mais do que ir para o céu para o pé do menino Jesus, havia ali uma finitude que ninguém me queria esclarecer. A minha avó chamou o meu padrinho Eusébio e deu-lhe conhecimento da promessa que eu lhe tinha feito e ele aceitou ajudar-me a cumpri-la. E cumprimo-la, os dois, a pedido de uma das pessoas mais importantes das nossas vidas. O meu padrinho só voltou a entrar numa arena para retirar um amigo, colhido por um vitelo numa garraiada. Mas por ele, para ser ele a enfrentar o touro, nunca mais. A minha avó pediu-me um último beijo, foi mesmo o último… Voltei a sentir, pela última vez a sua pele macia, a carícia da sua mão na minha cara e vi pela última vez o rosto bonito da minha avó, de quem dizem que herdei os olhos verdes e as mãos compridas de unhas redondas. A morte da minha avó deu-se logo a seguir a este episódio. Hoje tenho a certeza que ela estava à minha espera, à espera de se despedir de mim, de me confiar a missão de cuidar do seu filho mais “maluco” para morrer. Mesmo que não seja verdade é nisso que quero acreditar. Como quero acreditar que morreu em paz, confiante que eu cumpriria a sua última vontade. Eu não acredito na vida depois da morte, nem nada dessas coisas, mas juro, que nos piores dias e nas piores noites, tenho a sensação do toque da mão da minha avó na minha cara. A maciez da sua pele volta a tocar-me e a dar-me o conforto que muitas vezes os vivos não me conseguem dar. Eu tinha quatro anos quando percebi que as pessoas quando morrem não vão para o céu, nem para ao pé do menino Jesus, não vão para lado nenhum, na verdade, continuam dentro de nós, nos nossos corações durante toda a nossa vida. Tenho 50 anos e há 46 que tenho a minha avó Cecília viva no meu coração e por cá continuará enquanto eu for viva.

Antiguidades, ternura, tias e marmelada

Gosto tanto de ser antiga. Gosto mesmo. Não é raro o meu marido virar-se para mim e dizer-me: “És muito antiga”. E ri-se no gozo comigo e com as minhas antiguidades.

Ele tem razão, eu sou mesmo antiga. Em muitas coisas. Nas canções, que gosto de ouvir e que me recordam um tempo em que eu ainda nem tinha nascido, na forma como faço a comida e como a tempero e naquela mania, muito minha, de fazer as minhas polpas de tomate, o tomate seco, as compotas, os doces e as marmeladas. Já para não falar dos bolos, dos biscoitos, enfim, de quase tudo.

É como eu costumo dizer: “Odeio comida pré-fabricada”. É que odeio mesmo. Sempre achei tão interessante ser eu a produzir os bolinhos de aniversário, os biscoitinhos, as bolachinhas de chocolate, os rissóis, os croquetes, o folar da Páscoa, os docinhos todos do Natal, tudo, tudo…

Adoro quando tenho pretexto para ir para a cozinha e ficar por lá horas a fio, às vezes dias, a produzir coisas, a confecionar petisquinhos e coisinhas e sentir à porta da minha casa o cheiro a antigamente.

Sabem aquele cheirinho da casa da avó? No meu caso era mais das tias, porque uma das minhas avós morreu quando eu tinha 4 anos e a outra nunca foi uma pessoa de quem fosse muito próxima. Mas as minhas tias, em especial a minha tia Matilde fez o favor de me deixar essa lembrança na memória.

Sempre que chegava a casa da minha tia começava por beber água no púcaro de alumínio que estava pendurado no quintal na torneira por cima do tanque de lavar a roupa. A melhor água do mundo, garanto. Um sabor especial o daquele púcaro. Não sei se ainda por lá anda…

E depois avançava para a cozinha da minha tia, uma cozinha com uma lareira alentejana onde o lume ardia e deitava calor a uma panela de barro assente em cima de uma trempe, onde fervilhavam feijões, couves, batatas, uma sopa com o melhor saborzinho do mundo, de que ainda hoje guardo o cheiro e o carinho com que era feita.

Também na casa da minha tia comi o melhor queijo fresco do mundo, apertado no cincho pelas mãos da minha tia que nunca pintou as unhas nem foi à manicure mas que tinha e continua a ter, certamente, das mãos mais bonitas do mundo.

Foi com ela que passei algumas das melhores tardes de verão, a brincar com pequenas forminhas em alumínio, julgo que da minha prima, a sentir cheiros e a comer coisas boas que guardei até hoje no coração.

Obrigada, tia Matilde (ti’à Matilde, como se diz na minha terra) por ter contribuído de forma tão decisiva para o meu stock de memórias boas. Guardo-as a todas com muito carinho.

Tenho mais tias, a minha querida tia Ana, que eu adoro, a minha madrinha Emília, que adoro também, a minha tia Isabel, a mais nova da ninhada e querida, querida, já para não falar que faz as melhores empadas de galinha do mundo e arredores, e ainda as tias adotadas, como a tia Laurinda e a minha madrinha Benvinda, e todas elas me mimaram quando era miúda, sempre que me apanhavam a jeito. Em casa de todas me senti sempre amada e mimada, muitas vezes até mais do que na minha e a todas agradeço por terem contribuído para me tornarem uma pessoa melhor e com muita bagagem boa dentro de mim.

Uma bagagem que tem sido tão importante e fundamental para manter a sanidade em algumas alturas da minha vida. Estou distante de todas, quase não as vejo, mas guardo-as no meu coração com a ternura que elas me transmitiram em criança.

 

Do baú das conversas com as minhas filhas

No outro dia em conversa com uma amiga que se queixava das coisas “más” que a filha de quatro anos e meio lhe diz quando se chateia com ela ou quando tem de lhe impor regras, lembrei-me de um dos muitos momentos com a minha filha mais velha.

Dizia-me a minha amiga que no auge de uma birra a filha lhe disse: “Qualquer dia vou-me embora desta casa”. E eu lembrei-me.

Estávamos a ter uma discussão, eu e a Sara, não me lembro sobre o quê, quando a pirralha, para aí com uns três anos se virou para mim, toda decidida e diz: “Quero-me ir embora desta casa”.

“Queres? Está bem. Anda lá que eu ajudo-te a fazer a mala. Vais para onde?”, perguntei-lhe.

“Vou para casa da avó”, que morava no andar de baixo, respondeu, toda cheia de estilo.

“Não, para casa da avó não pode ser, que a avó não pode ficar lá contigo, tens de ir para outro sítio qualquer”, fui-lhe dizendo enquanto lhe metia umas roupas numa mochila.

Abri-lhe a porta, dei-lhe a mochila e um beijinho e fiquei a vê-la a descer a escada, a olhar por cima do ombro para ver se eu a estava a ver ou se ia atrás dela. Fui-lhe dizendo adeus e quando ela acabou de descer a escada desci também para ver até onde ela ia. Ainda pôs a mão no puxador do portão para o abrir, mas depois começou a vacilar, sentou-se no degrau a fazer beicinho, com ar de quem não sabia muito bem o que fazer à vida.

Cheguei ao pé dela e disse-lhe: “Então não ias embora?”.

Pensam que ela deu o bracinho a torcer? Nem pensar nisso ou não fosse ela minha filha: “Acho que vou só amanhã. Esqueci-me de umas coisas…”.

Voltámos para casa, desfizemos a mochila e nunca mais falámos no assunto, mas também nunca mais me ameaçou que fugia de casa. Deve ter ficado a pensar no caso.

  

A propósito das malas femininas

Cá em casa é recorrente toda a gente me dar na cabeça porque as minhas malas (supermercados, como o meu marido lhes chama), são pesadíssimas e gigantes.

Ah, pois são! E esta gentinha (marido e filhas) estranham o quê?

Tudo começou quando nasceu a primeira filha. Sempre que saía precisava de levar toalhitas, água, uma muda de roupa, fraldas, e eventualmente, alguma comida, tipo bolachas, fruta, coisas afins. Como todas as mães comecei por ser muito organizadinha e levar, para além da minha mala e da miúda, um saco daqueles de bebé, cor-de-rosa, a condizer com a criança, onde levava tudo o que uma filha pode precisar, que inclui também alguns brinquedos, chuchas, etc.

Como nunca fui grande fã de carrinhos de bebé, se calhar porque não tinha jeito nenhum para abrir aquela geringonça, andar com uma filha, um saco, uma mala e às vezes mais uns sacos ao colo começou a revelar-se desastroso para as minhas costas e traumatizante em matéria de equilíbrio. Quando equilibrava a mala, caía o saco, quando equilibrava o saco, caía a mala e, felizmente, consegui que nunca caísse a criança, sabe Deus como…

Comecei a comprar umas malas maiores para conseguir levar tudinho e ter somente que equilibrar duas alças no ombro. As mochilas, de que fui adepta durante muito tempo, revelaram-se excelentes aliadas, excepto na hora de precisar de tirar a carteira, ou as toalhitas, ou um lenço, ou outra coisa qualquer e, muitas vezes não ter onde a pousar. Eu tive crianças no tempo em que as casas de banho públicas não tinham uma invenção maravilhosa a que chamam fraldário. A minha vida não foi fácil.

E tudo piorou quando nasceu uma segunda filha. As malas cresceram mais um bocadinho. Com a agravante de a segunda filha ser uma badalhocazita do pior quando era pequena. Entretanto cresceu e ficou uma criatura adorável e super asseadinha.

E conforme foram crescendo as coisas foram piorando. Passei por vergonhas de tirar Barbies da mala quando só queria tirar a carteira para pagar um café e nem tinha ao colo uma criança que justificasse a presença da loira escultural dentro da minha mala. Durante anos se virasse uma das minhas malas ao contrário era certinho que encontrava os sapatos de salto alto perdidos da Barbie, uma ou outra tiara, variadíssimos e originais ganchos de cabelo (duas filhas), elásticos, fitas, bandeletes, meias (?), chuchas, toalhitas, fraldas (nem sempre limpas), balões, brinquedos vários, roupa suplente de vários tamanhos e mais tarde cuecas com a Margarida, a Minnie, a Barbie, etc…

Se eu tivesse contabilizado todas as coisas estranhas que passaram pelas minhas malas desde que as minhas filhas nasceram… Cheguei a ter um gelado, embora tenha sido um acidente. Talvez não um acidente, mas uma das primeiras manifestações de que a minha filha mais nova ia ser uma miúda muito arrumadinha. “Vou guadar o gelado, mãe”. Mãe à beira da exaustão: “Está bem filha”. Mãe no dia seguinte quando meteu a mão na mala: “Mas que raio de porcaria é esta? O que é que estas duas meteram na minha mala?” Mãe lembra-se da conversa da tarde anterior. Mãe começa a pensar que emigrar é uma coisa que talvez seja boa para a sua saúde mental. Enfim…

Entretanto cresceram e agora usam as suas próprias malas, mas as suas necessidades em relação à minha mala não acabaram. Não senhor.

Agora é: “Mãe, tens creme? Tenho a pele seca”, “Mãe, tens base? Pareço uma morta”, “Mãe, tens toalhitas?, “Mãe, tens água?”, “Mãe, tens lenços?, “Mãe, tens…”. Seja lá o que for que precisem a minha mala continua a ser muito procurada.

Para além delas ainda tenho o meu marido: “Gracinha, tens lenços?”, “Gracinha, tens alguma coisa para limpar os óculos?”, “Gracinha, podes guardar-me a carteira e o telemóvel?”, “Gracinha…”. Ganhei outro necessitado do conteúdo das minhas malas.

E depois ainda existo eu. Eu preciso da carteira, de três pares de óculos (ler, ler de sol, de sol normais), de lenços, toalhitas, base, espelho… Eu sou mulher e preciso sempre de toneladas de coisas.

Até há pouco tempo as minhas malas eram o chamado “granel” e não o organizado. Era mesmo muito desorganizado. Entretanto fiz uma incursão num chinês e comprei três adoráveis (são mesmo adoráveis) bolsas de três tamanhos diferentes.

A maior leva coisas como amostras de cremes, estojo de costura miniatura, toalhitas para limpar os óculos (daquelas húmidas), adoçante, sal (?), pimenta (?), fósforos, palitos, tesoura, escova e pasta de dentes, pensos rápidos, lima de unhas, açúcar (?), etc.

O tamanho intermédio tem o pó compacto (imprescindível para quem tem a pele oleosa como eu), um espelho, um pequeno pincel, toalhitas desmaquilhantes e papel absorvente para peles oleosas. Ah e um baton, embora raramente o use.

A mais pequena tem comprimidos para a dor de cabeça e para as enxaquecas e outros que possam ser necessários em emergência.

Para além das três adoráveis bolsas, tenho toalhitas daquelas tipo refrescantes, lenços de papel, um leque (menopausa), as chaves de casa e do carro, a carteira (gigante, claro), um ou dois sacos de compras, vários papéis, o telemóvel e um pacote de pastilhas.

Isto é o básico, porque se for para algum sítio onde seja suposto andar muito, levo umas sabrinas na mala (geralmente uso saltos altos), eventualmente água e um livro. Agora imaginem o peso conjunto de tudo isto nas costas de uma pessoa.

Tinha 19 anos

Tinha 19 anos.

Na loja de vestidos de noiva, a senhora, muito solícita, ia apertando a cada prova a cintura do vestido e repetia: “Parece que vai fazer a primeira comunhão. É tão miudinha”.

Tinha 19 anos.

Tinha começado a trabalhar em setembro e o casamento estava marcado para 28 de dezembro desse mesmo ano. O espelho devolveu-me a minha imagem. Fiquei a olhar para mim como se não me conhecesse. Onde estava o meu sorriso? A minha alegria? O brilho do meu olhar? Sempre me tinham dito que os meus olhos eram um livro aberto para a minha alma, que eram transparentes. Não me reconheci na imagem daquela miúda triste e desanimada que vestia um vestido de noiva, que parecia de primeira comunhão. Foi nesse momento que tomei a decisão de mudar as coisas. Já sabia que não ia ser fácil, mas tinha mesmo que ser. Foi aí que tudo começou a mudar.

Tinha começado a namorar com o F. com 14 anos durante as férias de verão no Alentejo. Ele era bem mais velho do que eu, acho que mais uns oito anos. Esse foi o verão da minha afirmação. Finalmente tinha deixado de usar óculos, cortei o cabelo, comprei roupas giras e senti-me, eu própria, muito gira. É um facto que a beleza também vem de dentro, ou então foi a minha recém descoberta autoconfiança que ajudou a que tudo acontecesse.

Conheci-o na aldeia, durante o verão. Ele fazia parte do grupo de amigos do meu primo. Não era muito alto, mas eu sou baixinha. Tinha olhos verdes e um ar engraçado. Também me deve ter achado piada e começámos a conversar e a trocar olhares. Descobri que tinha algum jeito para o jogo da sedução. Somos tão parvas com 14 anos. Antes do final do verão trocámos os primeiros beijos e as respetivas moradas. Nessa altura, estamos a falar de 1980, não havia telemóveis, a internet ainda não tinha sido inventada e nem toda a gente tinha telefone fixo em casa, por isso ainda se escrevia muito. Dei a morada da loja de uma amiga porque já sabia que os meus pais iam investigar quem era o tal que me andava a escrever. Infelizmente não contei com os pais da minha amiga. Demorei-me a ir buscar uma carta e a senhora, muito bem intencionada entregou-a à minha mãe. Um dia quando cheguei a casa estava o meu pai de carta, naturalmente aberta, em punho.

- Quem é este? De onde é que vocês se conhecem? Quais são as intenções dele contigo? De quem é que ele é filho?

Sei lá de quem é que ele é filho. O que é que isso interessa? Nem namorava com os pais dele… Intenções? Que intenções? Namorávamos, só isso.

- Namorar é para casar. Eu só namorei o teu pai. (Será?) Ele que fale connosco se quer namorar contigo. E a partir de hoje escreve cá para casa.

Informei o interessado, que mais velho, achou tudo muito bem. E não percebi onde me estava a meter, nem pouco mais ou menos.

Tenho que confessar que tive outros namorados. Nunca lhe fui fiel. Lamento, mas tinha 14 anos. E ele estava no Alentejo. Acho que na minha cabeça o namoro só era oficial quando eu lá ia. Começou a escola e descobri que as minhas mudanças davam na vistas. Tive muitos namorados nesse e nos anos seguintes. Ele continuava no Alentejo e continuávamos a namorar, por carta, claro, e sempre que eu ia ao Alentejo. Agora com a bênção parental.

Acho que nunca gostei verdadeiramente dele, era demasiado miúda. Nunca passámos de beijinhos e pouco mais. Nunca o deixei avançar muito, era muito púdica, dizia ele, eu simplesmente não tinha vontade de avançar mais. Já tinha lido muitos romances e achava que ainda não sentia o necessário por ele para avançar para coisas mais íntimas. É o que dá ler muitos livros, a pessoa fica com ideias…

Acabei o 11º ano e passei o verão a tirar um curso de “secretariado e práticas de escritório”, que me permitiu começar a trabalhar em setembro. Os meus pais, os dele e o próprio marcaram o casamento. Os pais deles deram-lhe o dinheiro para a entrada de um apartamento, um rés-do-chão com quintal a menos de cinco minutos da casa dos meus pais, e os meus pais mobilaram-no com uns móveis em “estilo antigo” absolutamente terríveis. Começámos (começaram, nem sei) a mandar convites, a escolher restaurantes, fotógrafos e o vestido de noiva…

Comecei a perceber o que estava a acontecer. Caí na real, como dizem os brasileiros. Caiu-me a ficha, como se diz agora.

Perdi o sorriso, a alegria, a vontade de tudo… No sítio onde eu trabalhava a minha patroa, uma pessoa fantástica começou a apertar comigo para lhe contar o que se passava. Contei-lhe tudo, mas tinha a sentença lida: “Se não te casares sais de casa”. E eu ganhava uma miséria e, convenhamos, continuava a ser uma miúda, tinha 19 anos. A minha filha mais nova tem agora 20 e não consigo imaginá-la nem perto de um altar. A minha patroa foi maravilhosa: “Se o teu pai te puser na rua, vais para minha casa até resolveres as coisas. Ajudas-me com as miúdas. Não ficas na rua, não te preocupes”. Ganhei coragem. As minhas colegas de trabalho também me ajudaram, aliás foi na casa de uma delas que me refugiei.

Falei com o noivo, disse-lhe que não conseguia continuar com aquela farsa, que não gostava dele, que era muito miúda, que ainda queria fazer muita coisa. Ficou violento, levantou-me a mão, tive de me defender, levantei um joelho, acertei-lhe num sítio delicado e fugi. Corri para minha casa, contei que me tinha tentado bater, perguntaram-me porquê e repeti a história: “Não consigo casar com ele, tenho nojo dele, não suporto que me toque, não aguento o cheiro dele, não gosto dele”.

Insultos, insultos, insultos, ameaças, ameaças e mais ameaças. “Casas a bem ou a mal. Não me vais envergonhar na minha terra, que nunca mais lá vou poder pôr os pés. O que é que vamos dizer às pessoas?”. As pessoas, sempre as pessoas, sempre os outros, muito mais importantes do que uma filha feliz ou infeliz.

As coisas pioraram e muito. No dia seguinte, esperei que a minha mãe saísse para a missa, provavelmente para pedir a Deus uma filha mais obediente e com menos vontade própria, e que o meu pai saísse para a tasca e saí também, com um saquinho pequenino, para não dar muito nas vistas, só com uma muda ou duas de roupa e fui direta a casa de uma das minhas colegas de trabalho. Chorei, chorei, já nem me lembro bem, já se passaram 30 anos. Fiquei lá apenas umas horas. Os meus pais fizeram uma pequena investigação e acabaram por me ir lá buscar.

Novas regras em casa: “A partir de agora se quiseres comer, compras a comida e cozinhas para ti (que novidade, desde os sete anos que fazia o meu almoço)”. O meu pai deixou de me falar a não ser que fosse para me insultar, a minha mãe andava mais ou menos na mesma. Mas o casamento ficou fora de hipótese. Menos mal.

Quando fomos começar a tirar as coisas ao tal apartamento de rés-do-chão com quintal, o F. apareceu e começou a insultar-me a mim e à minha mãe. Pela primeira, e acho que única vez na minha vida, o meu pai defendeu-me, mas se calhar foi só porque o meu tio estava lá e ele sentiu-se nessa obrigação. Ele ameaçou atirar coisas da chaminé para cima da minha mãe e eu atirei-lhe uma bela jarra de cristal à cabeça, que lhe abriu a testa. Ameaçou-me com uma queixa. Nem me incomodei a responder-lhe. Para quê?

O meu pai esteve uns dois anos sem ir ao Alentejo e a minha mãe foi lá comigo quando nasceu a minha afilhada, filha de uma irmã dela. Mas ficámos em casa da minha tia, não na nossa casa, demasiado central e exposta, e fomos a casa de um outro tio pelas ruas de “trás”, pelo meio dos campos. A minha mãe tinha vergonha e não queria “passar à porta dos pais dele”, que “não sei o que hei-de dizer às pessoas”, porque “tu só me fazes passar vergonhas”. Enfim.

Devolvi o vestido de noiva, o tal que parecia de primeira comunhão. Fiquei com um crédito na loja para futuras compras. Menos mal. Recuperei o sorriso e o brilho dos olhos.

As loiças, os tachos, os lençóis, as toalhas voltaram a ser arrumadas no sótão. Os móveis foram devolvidos e alguns transitaram para casa dos meus pais. Ainda hoje lá estão. Era de “estilo antigo”, de boa qualidade. “Já não se fazem móveis assim”. Ainda bem, são horríveis. E cheios de má energia.

Eu? Eu nunca tive vergonha de voltar ao Alentejo. Vergonha de quê? Não matei nem roubei ninguém. Não tenho que ter vergonha de querer ser feliz, pois não? Não sei se ele alguma vez casou. Cruzei-me uma ou duas vezes com ele depois disso, mas confesso que não senti qualquer remorso. Se não ultrapassou é porque é fraco de carácter e isso só dá mais razão à minha decisão de não querer casar com ele. Acho que nunca mais vi os pais dele, o que é curioso porque falamos de uma aldeia pequena onde toda a gente se conhece. Mas também não vou lá assim tanta vez.

Tinha 19 anos. Já se passaram 30 anos.

A Farsa

Fui ao Teatro Nacional D. Maria II ver A Farsa com uma atriz que, confesso envergonhadamente, não conhecia, a Sara Carinhas, mas que já ganhou mais uma fã.

A Farsa é um texto de Raúl Brandão centrada no ódio recalcado de Candidinha, uma mulher seca, triste e desesperada.

A Sara surge em cena nua, de roupa, mas completamente vestida de talento, de expressão. Ficamos expectantes a olhar para as transformações que o seu corpo nos mostra. A forma como se metamorfoseia na frente dos poucos espectadores que a Sala Estúdio permite, e ainda bem, porque é um texto para se viver com a atriz e não para se ver de fora.

“Vinda de um lugar fantasmagórico, uma voz grita dilacerada: ‘Ai que ma levam’ e, num ápice, o escuro profundo da sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II transforma-se num velório onde distinguimos Anacleto, viúvo que ‘berra sacudido pelo desespero’, Candidinha sentada num xaile coçado, Felícia cidadã honorária das servas de Deus, Patrícia de peito volumoso e mole, o escrivão Belisário ‘todo sebo’... são muitas as personagens em torno da morta mas todas elas acontecem num só corpo, o de Sara Carinhas, atriz, bailarina e performer que aqui explora os seus limites”, assim é apresentada a peça e assim é entendida pelos espectadores.

 

Confesso que no início quando avisam que o espetáculo terá a duração cerca de duas horas e meia, fiquei um bocadinho em pânico, mas a verdade é que as duas horas e meia passam rapidamente e de forma absorvente. Mesmo numa sexta-feira, no final de um dia de trabalho, o quinto de uma semana de trabalho, mesmo depois de uma pessoa se ter levantado às sete da manhã e ter dormido cerca de três horas, é impossível não centrar a atenção na (Candidinha) Sara Carinhas.

 

Na segunda parte somos convidados a circular pelo espaço de cena para melhor absorvermos o percurso da personagem que se move cegamente (mesmo cegamente) pelos vários nichos onde vai de alguma forma cumprindo o seu destino, é absolutamente avassaladora. A Candidinha que vê o seu sonho ruir e que vê o seu destino cada vez mais sombrio…

 

E portanto, ao contrário do que aconteceu com Tribos, adorei A Farsa, as minhas filhas adoraram e passámos um serão a três muito bom.

A Sara Carinhas é um TALENTO! A Sara é toda ela expressão, toda ela arte, é absolutamente maravilhosa. Maravilhosa. Fiquei fã e adorei.

 

Lá está, não precisamos de ir ao Brasil buscar talento de palco. O palco está na génese portuguesa, os atores portugueses são de facto animais de palco. Mais uma vez se prova.

Que pena que se fale tão pouco de teatro em Portugal. Que pena que atrizes como a Sara Casinhas não sejam o mais conhecidas possível. Como é que é possível?

Parabéns Sara Casinhas. Na próxima atuação estarei lá. Porque só poderei sair maravilhada e cheia de emoção. Como saí de A Farsa.

 

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