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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Comentários na net!

(Post escrito originalmente a 13 de outubro, dias depois da morte de Fátima Raposo)

Esta é uma daquelas coisas que me faz mesmo confusão.
Quando não temos nada para dizer o melhor é calarmo-nos. Certo?
Pelo menos foi assim que sempre me ensinaram.
Já repararam que os comentários das pessoas na net a notícias, fotos, etc, é sempre
negativo?

Pior, já repararam como as pessoas escrevem mal hoje em dia?
Não há respeito pelas maiúsculas e minúsculas, pelas vírgulas ou pontos finais.
Enfim, não há respeito pela língua portuguesa. Não que eu seja, obviaemente perfeita, tenho um enorme problema com vírgulas, mas mesmo assim.
Hoje atingi o meu limite com os comentários feitos no SapoFama, à reportagem sobre o velório da Fátima Raposo.
Os portugueses são tétricos, macabros.
Acham que devia estar toda a gente lavada em lágrimas, a chorar baba e ranho e a assoar os narizes até lhes gastar a pele.
Como se a dor das pessoas se medisse pelas lágrimas que choram em público!
Como se a dor não ficasse para sempre alojada nos corações de todos os que gostavam da Fátima.
Eu conheci a Fátima. Não éramos amigas, nem nada disso. Passámos umas férias juntas porque o namorado que ela tinha na altura e o meu marido, que ainda tenho, são amigos há muitos anos.
Quando soube do acidente fiquei chocada.
Somos da mesma idade e a filha dela é mais ou menos da idade das minhas.
Durante o tempo em que convivi com ela, achei-a uma pessoa muito meditativa e introspectiva. Metida no seu mundo.
Muito sensível, o que explica a sua opção pela pintura e filosofia de vida que escolheu nos últimos anos.

Não tinha idade para morrer. Mas nunca ninguém tem...
Enquanto as pessoas que comentaram a notícia viram os sorrisos, eu vi os olhos.
Vi os olhos tristes e cheios de dor do Zé Manel Saraiva e da Palmira Correia.
Vi os olhos da Inês Pais.
Vi os olhos tristes das pessoas. Vi as bonitas tentativas das amigas da Inês para a animarem. E arrancaram-lhe uns sorrisos. Ainda bem. É bom que ela não tenha perdido a capacidade de sorrir.
Onde quer que esteja a mãe vai querer que ela continue a sorrir. Não é o que todas as mães querem?
As pessoas deviam pensar melhor antes de darem palpites sobre assuntos, que não lhes dizem respeito e sobre os quais nada sabem.

A morte das pessoas não tem forçosamente que significar o fim e dependendo de quem parte e da sua postura perante a vida, assim deve reger-se a homenagem que lhe prestam os que ficam.

Eu deixo já aqui bem explicadinho que não quero lágrimas, nem tristezas. Quero que façam um brinde e leiam Fernando Pessoa. Quero que passem a música "Índia" de Gal Costa e quero ser cremada e que as minhas cinzas sejam levadas para um sítio quente, de preferência no Brasil, de preferência no "Sítio do Bruxaxá", que significa lugar de encantamento. É isso que quero e não amarguras.

Somos o espelho dos nossos pais?

NÃO!
Tenho mesmo a certeza de que não.
Se fossemos eu seria uma pessoínha horrível.
Uma mulher fria, seca, mal-amada e muito mal resolvida. Com muitos traumas e complexos de inferioridade.
Uma mãe distante e desligada.
Uma amiga que ninguém quereria ter. E felizmente não sou.
Às vezes quando
estou a ver alguns programas na televisão em que as pessoas se desculpam das
suas atitudes com os maus tratos da infância e a falta de carinho que tiveram,
apetece-me imenso abaná-las até lhes cairem os dentes.

A sério?
Nunca tiveram amor e por isso também não o têm para dar?
Não me venham com tretas.
Faz parte do nosso percurso como seres humanos crescer e melhorar.
Esta gente nunca ouviu dizer que o que não nos mata nos torna mais fortes?
Então só porque nos maltrataram também temos de maltratar?
Porquê? Para nos vingarmos? De quem nos maltratou ou de quem sofre com os nossos maus tratos?
Era bonito eu agora começar a massacrar as minhas filhas só porque me massacraram a mim.
Lembro-me muitas vezes de uma frase que me dizia a minha mãe na infância:
- Quando fores mãe vais perceber...
Já fui mãe há vinte anos e cada vez percebo menos as atitudes dela.
Porque antes de ser mãe já amava as minhas filhas e o meu propósito enquanto mãe é que elas sejam felizes.
Que sejam mulheres justas, equilibradas, responsáveis, bem formadas. E acima de tudo que respeitem os outros. Que não pisem ninguém para atingir os seus
objectivos.

E tenho um propósito mais secreto.
Quero que quando falem de mim, tenham orgulho de serem minhas filhas.
Que me considerem a melhor mãe que poderiam ter tido. Que me respeitem sempre.
E que quando forem mães, no seu papel junto dos filhos me tenham como modelo.
Quero ser um MODELO para as minhas filhas. Eu sei que é um propósito ambicioso, mas a ambição não tem de ser forçosamete um defeito. Se for uma ambição positiva pode ser uma força e um motor muito grande no nosso percurso.
Quero que continuem as tradições de Natal, Páscoa, aniversários e todas as outras que são nossas e que começaram comigo e com elas.
Quero que se lembrem de mim quando embrulharem os presentes de Natal todos iguais, para a árvore de Natal ficar bonita e combinar com os tons da sala.
Quero que se lembrem de mim quando decidirem que o amarelo é a cor que combina mais com a Páscoa.
Quero que se lembrem de mim quando fizerem os bolos de aniversários dos filhos. E lhes planearem as festas.
Quero que se lembrem de mim quando os obrigarem a vestir-se de uma cor que combine com a decoração de Natal desse ano, ou da Páscoa, ou de qualquer outra festa.
Quero que se lembrem de mim como uma pessoa importante na vida delas e que, mesmo depois de já não estar fisicamente, continue a ser recordada com carinho.
As minhas filhas são o meu orgulho.
Um orgulho muito grande. Somos uma equipa, um trio unido. Discutimos, ralhamos, mas estamos sempre lá umas para as outras. Espero que para sempre.
Com elas, com o meu chatinho, a filha dele e a gata, construí um mundo que me
protege de tudo.

Tenho uma família, que pode não ser típica, mas que é a que eu escolhi.
A que eu amo e que me ama incondicionalmente.
A minha família!

Eu não sou o espelho dos meus pais, mas espero que o meu reflexo fique de alguma forma nas minhas filhas. 

A memória curta de algumas pessoas

(publicado originalmente em outubro de 2011)

Há coisas que nunca deixarão de me surpreender.
A capacidade que as pessoas têm para eliminarem da sua memória tudo o que é anterior a determinado acontecimento é uma delas.
A tendência visível dos seres humanos para passarem uma esponja por cima de tudo o que não lhes convém no momento...
E acima de tudo a rapidez com que ignoram tudo o que viveram, conviveram, disseram e sentiram com alguém numa época da sua vida.
"Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães."
Uma pessoa que me é muito querida diz isto de vez em quando.
Começo a concordar verdadeiramente com esta pessoa.
Podemos conviver diariamente com as pessoas, mostrar o nosso lado A e o B, ou seja o melhor e o pior de nós.
Podemos ser o mais transparentes, correctos, educados, atenciosos, enfim as melhores pessoas do mundo.
Podem ter a certeza que no dia em que alguma coisa correr menos bem, essas pessoas vão ignorar tudo o que de bom aconteceu e tratar-vos como se não soubessem nada sobre vós.
É estranho e infelizmente nada que eu possa explicar melhor.
Convivi durante três anos com alguém que agora me acusa de ser mentirosa,  trapaceira, cínica, e nem me lembro o quê mais...
Uma pessoa a quem sempre tratei o melhor possível.
Até quando era necessário chamar a atenção o fazia com luvas de pelica.
Que substituí para que pudesse descansar, melhorar, recompôr-se...
E agora sou acusada de ter mentido durante todo o tempo em que convivemos, de ter encarnado um papel e mostrado uma pessoa que afinal não era eu.
Devo ser uma actriz excelente. Nem sei como ainda não me deram um Óscar!
 Ou pelo menos um Globo de Ouro... Sabem que mais?
Fiquei chateada. Com certeza que fiquei chateada!
Mas como diz o povo: "Os cães ladram e a caravana passa!"
Eu sou a caravana. O que é que isto faz dessa pessoa?
Ah! Pois é!
Porque, como costuma dizer uma outra pessoa de quem eu gosto mesmo muito:
- Mas você ainda liga a essa gaja?
Tens toda a razão "fofinha". Está na altura de parar de ligar a esta gentinha.
E como diz a minha filha linda:
- O que é que interessa o que essa gente pensa? As pessoas que te conhecem sabem como tu és e a pessoa que és. E isso é que interessa.
No final de tudo isto, eu sou uma pessoa muito feliz.
As pessoas que realmente interessam sabem bem quem eu sou. E isso é que conta.

A propósito de tudo, ou de nada!

(publicado originalmente em outubro de 2011)

Costumo dizer que a melhor coisa que a minha mãe fez por mim foi atirar-me para a frente. Que é como quem diz, em vez de me dar o peixe ensinou-me a pescá-lo.
Sem grandes confusões nem palmadinhas nas costas, a minha mãe conseguiu que eu me tornasse uma criatura desenrascada e com um excelente jogo de cintura.
Começámos a saga quando entrei para a escola primária.
Nada dessas mariquices de: "Acorda lá meu amor. Tens o pequeno almoço na mesa. O lanche já está dentro da mala (eu sou do tempo em não havia mochilas). Vá lá a mãezinha ajuda-te a vestir".
Comigo foi mais do género: "Tens aqui um despertador. Funciona assim e assado. Tens que ter tempo para te levantares, vestires, comeres e chegares à escola. Hoje ajudo-te. A partir de amanhã estás por tua conta."
Ora aí está. Sem papas na língua nem travessões no cabelo.
Eu tinha sete anos e aprendi a ser responsável num instantinho.
E nunca adormeci, nem cheguei atrasada à escola, nem coisas do género.
Hoje em dia é que os miúdos chegam atrasados porque os pais apanham trânsito pelo caminho.
E também não pensem que me foram levar à escola no primeiro dia.
Para quê? Eu sabia muito bem onde era a escola.
O facto de ter apenas sete anos era um pormenor. Todos os dias me diziam que já não tinha idade para brincar com bonecas, por isso porque é que haviam de me levar à escola? Eu já era crescida.
De qualquer maneira, digo-vos já que eu também não ia querer de certeza.
Era assim do mais independente que possam imaginar. E despachada. Ah! Pois era! Despachadissima! Ainda sou.
Às vezes não dá jeito nenhum e até acho que aquelas mulheres que se fazem de inúteis são muito mais felizes. Eu sou mais do género de pegar na chave de fendas e fazer furos na parede.
Lá fui eu para a escola.
Duas semanas depois trago um recadinho para casa. A professora queria falar com a minha mãe.
- Quando eu chegar a casa conversamos.
E eu em pânico, a pensar que raio teria feito?!
Não me lembrava assim de nada, mas...
Afinal era só porque me queriam pôr na sala da segunda classe.
Acabei por fazer a escola primária em apenas três anos. Foi quando ganhei a minha fama de génio da família. Era a intelectual da ninhada.
Mais coisa, menos coisa, ainda mantenho uma certa fama. Agora é mais de estranha, mas pronto.
Chegava da escola e fazia o meu almoço. Durante um ano almocei bife com esparguete. Era tudo o que eu sabia fazer. Ainda hoje
adoro bife com esparguete. Sabe-me sempre a "sete anos de idade".

Depois comecei a cozinhar outras coisas: bife de cebolada, batatas fritas e cozidas,
arroz branco, enfim...

E aprendi a desenrascar-me na cozinha. E pelo menos sempre tive a vantagem de nunca ter a hipótese de morrer de fome, desde que haja ingredientes por perto, nem que seja um tomate, para começar uma sopa...
A minha mãe trabalhava de costura para um armazém de revenda. Uma vez por semana ia a Lisboa de autocarro entregar o trabalho da semana.
Quando eu chegava da escola, ela normalmente ainda não tinha chegado.
Aproveitava para me aventurar nas minhas primeiras costuras na máquina dela.
E ponto a ponto, aprendi a costurar.
Estão a ver aquele ditado que diz que a ocasião faz o ladrão?
Eu aproveitava a ocasião para fazer vestidos para as bonecas que tinha escondidas no quarto e com que brincava quando tinha a certeza de não ser apanhada.
Aos poucos e porque a minha mãe tinha sempre mais que fazer do que cuidar de mim, aprendi a cuidar-me sozinha.
Hoje em dia é impensável deixar uma criança de sete anos aproximar-se de um
fogão.

Eu própria, só muito tarde deixei as minhas filhas fazerem-no, até tinha medo que elas mexessem no micro-ondas, imaginem o fogão.
E mesmo agora, que a mais velha tem quase 20 anos e a mais nova 17, se estiver ao pé delas na cozinha e as vir com uma faca na mão:
-Tem cuidado com a faca!
- Mãe! A sério?! Já não tenho 5 anos, sabes?
Sei, mas sou exactamente o oposto da minha mãe em matéria coração. Por isso estou sempre com medo que lhes aconteça alguma coisa.
Elas são desenrascadas. Não morrem de fome se ficarem sozinhas. Sabem fazer o básico em casa. Mas eu adoro cuidar delas e dar-lhes mimo, por isso nem chega a ser uma obrigação. E o mesmo vale para o meu
"chatinho". Ele bem pode resmungar à vontade, que eu continuo a ter a mania que sou mãezinha de toda a gente.

Estou-me a afastar do ponto principal.
A educação que me deram.
Se eu tiver que agradecer alguma coisa aos meus pais será isso.
A capacidade de me desenrascar em qualquer situação, de nunca ficar atrapalhada e de saber fazer tudo. Bom, quase tudo. Mas sei  fazer furos, mudar lâmpadas, pneus do carro, usar uma chave de fendas ou philips tão bem como qualquer homem, empatar um anzol e fazer pontaria a molas de roupa. E acertar-lhes. Obrigada aos dois.
Ao deixarem-me crescer sozinha deram-me uma enorme capacidade de enfrentar a vida e de contornar e resolver os problemas que foram e vão surgindo pelo caminho, e até a capacidade de viver com esses problemas.
Faltou o carinho. Mas essa é outra história.

De quando eu era miúda...

Mesmo muito miúda. Tinha para aí uns quatro ou cinco anos.
Fiquei doente. Apanhei uma coisa chamada escarlatina (são assim umas manchas estranhas na pele) e logo depois uma pneumonia.
A escarlatina passou-se. Fiquei de cama. Não me lembro bem, era mínima. Eu, a escarlatina acho que era de tamanho normal.
A pneumonia já é outra história e não das mais felizes...
Só para que conste eu nunca tinha levado uma injecção. Acho que nem uma vacina. Antigamente também os miúdos não levavam tanta vacina como agora. Confiava-se mais em Deus. E ainda não as tinham inventado todas, nem a expressão bebé esterelizado existia. Era mais a porcaria faz crescer.
Chamaram um médico lá a casa que decidiu que eu precisava de ir para o hospital urgentemente. E aqui começaram os sarilhos.
Primeiro porque eu não fazia ideia do que era um hospital, mas provavelmente com aquele sexto sentido das crianças, não achei piada à ideia.
Segundo porque os meus pais não tinham carro e portanto pediram a um amigo que me levasse.
Esse amigo tinha tido um acidente de automóvel e tinha a cabeça partida. Eu quando ouvi a história do acidente e que ele tinha partido a cabeça, imaginei assim uma coisa tipo as minhas bonecas. A cabeça a despegar-se do corpo e alguém a colá-la.
Por isso quando olhei para ele e lhe vi a cabeça completamente coberta de ligaduras brancas, desatei num berreiro digno de um infantário completo.
Sim que eu era pequenina, mas muito cheia de energia. Mesmo estando doente e pelos vistos a pneumonia embora seja nos pulmões não interfere com o barulho que um ser humano é capaz de produzir.
Lá me conseguiram enfiar no carro e calar a boca, de certeza que com muita dificuldade, que eu sempre fui na expressão do meu pai: "Mais torta que uma mula", que é como quem diz, assim para o lado do teimoso. Mas posso jurar-vos que durante todo o caminho até ao hospital eu olhava em pânico para a cabeça dele sempre com medo de a ver cair.
Foi a viagem mais comprida da minha vida e provavelmente a mais aterrorizadora. E chegámos ao hospital!
Consulta. Diagnóstico: Pneumonia. Prescrição: "Precisa de levar uma injecção de penicilina. Façam-lhe o teste!"
Inje...quê? Devem estar a brincar comigo.
E a minha mãe:
- Não é nada, é só um teste no braço para ver se és alérgica.
E eu muito desconfiada. Pois, o seguro morreu de velho e passavam a vida a dizer-me que se eu me portasse mal me levavam ao hospital para me darem uma injecção. Logo, não podia ser nada de bom. Certo? E aqui se prova a estupidez adulta de aterrorizar as crianças com os médicos, as injecções, os hospitais e já agora, o papão, o homem do saco, o lobo e todas essas idiotices que os adultos inventam e que depois nos trazem traumas imensos.
Lá me conseguiram fazer o tal teste. Descobriram logo ali que era o mais alérgica que
é possível ser à tal da penicilina. E eu a pensar: "já me safei."

As crianças são mesmo ingénuas. Substituiram logo aquela porcaria por outra, mas infelizmente também em forma de injecção.
Foi quando começou uma cena linda, da qual espero que os restantes intervenientes já se tenham esquecido. Eu? Nem pensar. Levei anos a ultrapassar o trauma e a deixar de ter pesadelos.
Acreditem ou não, eu que era uma lingrinhas do pior, espernei e contorci-me como uma verdadeira enguia.
Às tantas já estavam a minha mãe, o meu pai, o médico e um enfermeiro a segurar-me e não havia maneira de a outra enfermeira, a da seringa, me conseguir dar a tal injecção.
E vira-se ela:
- Eu, meninas como tu não lhes dou injecções. Mando-as para o jardim e deixo-as lá a morrer.
Tão sensível.
Mas se pensam que ela ficou sem resposta:
- Quero lá saber. Deixe-me ir para o jardim. Mas não levo a injecção e pronto!
O meu pai perdeu a paciência, (que nunca foi muita) e passou à ameaça:
- Mas tu estás quieta e calada ou queres apanhar mesmo doente? (Que falta de sensibilidade, eu ali a morrer...)
- Não quero saber. Podes-me bater mas eu não levo a injecção. Quero morrer.
Claro que quem é pequeno é sempre vencido.
Quase amordaçada e amarrada lá levei a injecção. Lá me mandaram para casa. Lá voltei ao carro à espera que a cabeça do homem caísse a qualquer momento.
Finalmente chegámos a casa.
E eu com mais um trauma - injecções NUNCA! Pelo menos até ao dia seguinte em que uma enfermeira apareceu por lá para me dar uma segunda dose. E uma terceira, e uma quarta... Foi uma semana horribilis...
Só perdi o medo mais tarde, tinha aí uns 9 anos, com um enfermeiro maravilhoso.
Mas essa é outra história, muito mais feliz.

Os peões, as passadeiras e os automobilistas!

(publicado originalmente em outubro de 2011, mas mantenho tudo o que escrevi)

Sou uma pessoa de pavio curto. Que é como quem diz irrito-me com facilidade.
E reclamo. Muito. Tenho uma amiga que quando anda comigo de carro, costuma rir-se imenso e dizer que as viagens comigo são uma aventura. nunca se percebe muito bem se continuo a falar com o meu pendura ou se já estou a comunicar com o carro da frente, ou de trás, ou dos lados... Mas que estou sempre a comunicar com alguém, quanto a isso não existem dúvidas.
Eu até acho que não sou má condutora de todo. Tenho carta há uns 300 anos e até hoje, felizmente, só tive um acidente.
Sou acelera, é um facto e há que admiti-lo. Tenho assim o pé pesadinho.
Mas só quando a estrada e o carro o permitem. Não sou de andar a acelerar dentro das localidades, por exemplo. Até costumo conduzir bastante devagar pelas ruas da minha cidade. (Foi bonito).
E não deixo o carro estacionado a estorvar ninguém. Não deixo mesmo por isso não vale a pena torcerem o nariz nem franzirem o sobrolho. Odeio pessoas que deixam os carros mal estacionados, a estorvar toda a gente, com a desculpa do "foi só um minutinho", que na maior parte das vezes é bem mais do que isso. Sou capaz de andar quilómetros para deixar o carro bem estacionado. E páro sempre nas passadeiras. Mesmo sempre. Não pensem que sou alguma santa, sou é uma pessoinha civilizada e respeitadora de algumas regras, não todas, mas algumas... Agora vou puxar dos galões: As mais importantes!!!
Mas não paro fora das passadeiras. Não páro mesmo e já fiz algumas tangentes a algumas pessoas que como diz uma amiga: Têm na mania!
E carrego na buzina se for preciso. E tenho a mãozinha pesada. Na buzina, claro.

Perto da minha casa, existem três semáforos em passagens de peões na mesma avenida. Até aqui tudo bem.
Se estão vermelhos, páro. Se não estão, não páro. Até aqui tudo bem, também.
O pior é que me parece que os peões ainda não perceberam que o verde que lhes permite avançar destemidamente para a estrada, tem que ter uma figurinha humana em movimento. Se for um círculo verdinho, quem avança é o carro. E isto é mesmo daquelas coisas que me deixa possuída, possessa, furiosa e muito, mas mesmo muito refilona. Do estilo de abrir o vidro e desatar a insultar as pessoas. Não é bonito eu sei que não, mas infelizmente não há nada que se possa fazer para o evitar. Quando eu penso no caso, normalmente já estou em casa. 

É tão irritante as pessoas abusarem da boa vontade dos outros.
E quando ouvem uma irritada buzinadela ainda olham com ar de desprezo... E alguns até refilam e até atravessam mais devagar, tipo a tourear o carro. RIBATEJANOS!!! Dá uma vontade de sair do carro e desatar à chapada a esta gente. À chapada sim, que eu sou ALENTEJANA e trato os bois pelos nomes.
Os peões têm de aprender a respeitar os automobilistas se querem ser respeitados.
E já agora também devia existir um sistema de multas para os senhores peões desrespeitadores:
- Os que atravessam fora das passadeiras, como ao lado do W Shopping, em Santarém;
- Os que atravessam quando o sinal está vermelho para eles, como na Avenida da Rodoviária, em Santarém, nos tais três semáforos; no Cartaxo, na Rua Batalhoz e enfim em muitos outros sítios, nestas e nas restantes cidades do país e arredores. Juntem-se a mim neste protesto!!! Peões precisam de disciplina! É um belo slogan...
Porque raio de carga de água é que eu hei-de ser multada se não parar num vermelho e um peão não?
Isto é como se diz na minha terra: "Ou há moralidade ou comem todos!"
Porque os senhores peões não podem simplesmente achar que só têm direitos.
Ah, porque estou com pressa. Pois também eu, ou acham que porque vou de carro não tenho pressa?
Já agora, quando ando a pé tenho o cuidado de não fazer aos outros o que não gosto que me façam a
mim.

Mas um dia destes...

Revistas Banquete

A maior parte nem deve saber do que eu estou a falar. Quando eu era miúda, mas mesmo muito miúda, ainda nem tinham inventado a internet, as receitas vinham em revistas. E nem eram revistas bonitas como as de agora, com fotografias fantásticas, papel de boa qualidade, etc. Eram a preto e branco, como a televisão e com umas fotos dos pratos que muitas vezes nem dava para perceber
bem do que se tratava, mas era o que havia.
Só mais tarde apareceu a Teleculinária que já era assim uma coisa muito sofisticada e de que tenho uma respeitável coleção.
A revista Banquete foi a minha primeira revista de culinária. Era feita sob a direcção culinária da Maria Emília Cancella de Abreu.
O meu pai trabalhava na antiga Cidla (uma das empresas que integrou a Galp - bolas sou mesmo antiga), e trazia para casa a Banquete.
Eu sempre fui uma miúda curiosa. Mesmo muito curiosa. E atrevida. E destemida. Por isso devia ter para aí uns 8 ou nove anos quando comecei a cozinhar com a Banquete. Afinal eles tinham uma secção que se chamava "Cozinha para Principiantes" e que se propunha ensinar o b-a-bá das coisas.
Isto tudo se passou para aí no inicio da década de 70. Imaginem!
Há uns meses atrás fomos, eu o meu "chatinho", a convite de um amigo muito querido, espreitar os livros que o pai lhe havia deixado. Entre esses livros, todos fantásticos, estavam três volumes encadernados da revista Banquete, que agora estão devidamente guardados na minha estante das preciosidades, aquela onde guardo os livros do coração. Sou mesmo sentimental.
Eu, que sou uma coisinha sensível, embora normalmente surja disfarçada de resmungona, juro que fiquei comovida.
As minhas perderam-se nos tempos e sucessivas mudanças de casa. E tenho-me lembrado muitas vezes delas.
E sem esperar voltei a encontrá-las. Foi um momento muito bom para mim. Ao folheá-las e ao sentir o cheiro do papel antigo, vi as primeiras receitas que me aventurei a fazer. As boas e as más experiências culinárias.
Lembro-me particularmente de um bacalhau com molho branco, que não correu nada bem. Enganei-me na medida do leite para o molho e ficou demasiado líquido. Não houve forno que secasse o raio do bacalhau.
E lembro-me do meu pai (esquisito com a comida como tudo), que, sem querer ferir o meu orgulho de cozinheira principiante e autodidata, só dizia: "Não está nada mau. Pena não estar mais sequinho!"
Note-se que o meu pai, como eu e toda a família, é alentejano. Nós ensopamos tudo com pão.
Ainda hoje tenho presente o esforço dele para não me desanimar em relação à cozinha. 
E ainda hoje me sinto agradecida por isso.

Mas também me lembro de algumas boas experiências como o meu primeiro bolo de ananás invertido, um maravilhoso bolo de nesperas que fiz a partir de uma receita da Banquete, a minha primeira tentativa de fazer uma tarte, enfim... Descobri massa tenra, massa folhada, molho bearnaise, molho tártaro. Aprendi muito com a Senhora Dona Maria Emília Cancella de Abreu e com a Banquete. Estava sempre ansiosa pelo próximo número. Era uma revista absolutamente deliciosa e ainda me recordo da emoção de folhear os novos números e decidir logo o que queria experimentar. Que longe estão esses tempos agora, em que uma receita está à distância de ums procura no google. Sem saudosismos, não é bem a mesma coisa. É mais rápido? É. é mais prático? É. Mas é tão saboroso como era? Não, lamento, mas o cheiro do papel continua a dizer-me muito. As minhas receitas mais preciosas estão escritas à mão num caderninho A5. Hábitos de pessoas antigas.

Entretanto já aprendi a fazer molho branco entre muitas outras coisas. Em comum com a garota de nove anos continuo
a ter a curiosidade e o atrevimento. Felizmente.

(publicado originalmente em setembro de 2011)

Insultos Médicos

(publicado originalmente em outubro de 2011)

Sou daquelas pessoas que adia o mais possível as idas ao médico.
Quando era miúda era assim do tipo "florzinha de estufa" e passava a vida doente. A minha mãe levava-me ao médico sempre que eu espirrava. Era uma desgraça.
Fiquei com anticorpos para o resto da vida.
Aqui há uns meses, no entanto, teve mesmo que ser. 
A partir de uma certa idade começa-se a afastar cada vez mais o telemóvel, o livro, as contas do
restaurante... Até se descobrir que o tamanho do braço já não chega para a distância a que temos capacidade de leitura. Uma das desvantagens da idade é que não se cresce e por isso o desgraçado do braço não colabora.

Por isso lá me decidi a marcar oftalmologista.
Expliquei o caso, ele lá me fez aqueles testes em que voltamos à primária e descobrimos que ainda conhecemos as letras do abecedário.
Achei que até me estava a sair bastante bem e que até estava a sobreviver ao impacto, quando o médico se vira
para mim e começa o ataque:

- Que idade tem?
Assim, à bruta. Sem qualquer aviso prévio. Será que nunca lhe disseram que não se pergunta a idade a uma
senhora?

Fiquei chocada e por isso:
- 44. Porquê? Pronto, faltava uns dias para fazer
45, mas tecnicamente ainda eram 44...

- Pois, já devia ter cá vindo para aí há 4 anos.
"DESCULPE?" - isto eu a pensar - "ESTE GAJO ESTÁ-ME A CHAMAR VELHA?"
Respirei fundo e tentei recuperar e controlar os nervos. E ele ataca de novo:
- Ainda por cima você deve ser muito teimosa!
"EU? TEIMOSA?" - eu a pensar. Pronto, está bem. Sou teimosa. E não é pouco, é mesmo bastante. Mas não conhecia o senhor de lado nenhum e não achei piada a tanto insulto seguido. Desta vez decidi-me pela mentira
descarada.

- Não, nem por isso. Porque é que diz isso?
- Porque você vê mesmo muito mal, tem duas dioptrias em cada vista. Mas mesmo assim não falhou uma
letra.

"E o que é que isso tem de mal?" - eu a pensar.
- Franze-se toda, faz um esforço descomunal mas não erra nada. Muito teimosa.
"Eu ainda lhe bato!" - eu a ...
- Se calhar é porque não vejo assim tão mal?! - esta disse, não pensei. Saiu-me!
- Vê mal, vê. E para além disso tem um estrabismo divergente alternado.
- Um quê? E ele repetiu. Já viram isto? Uma pessoa tem que encaixar no espaço de 5 minutos três insultos no seu vasto currículo: sou velha, teimosa e estrábica.
O que vale é que aos 45 anos temos uma capacidade de encaixe e recuperação muito rápidas. Mas mesmo assim...
Eu nem sequer me sinto velha. Pronto, talvez esteja na categoria dos clássicos, mas daí a ser velha...
E a admiti-lo na frente de um médico que eu não conheço de lado nenhum.
Saí de lá com uns óculos de "velha". Sim porque os velhos é que precisam de óculos para ver ao
perto.

Com mais um defeito no currículo - Teimosa. Está bem, eu já sabia, mas o médico não.
E ainda por cima sou estrábica. O que de facto explica muita coisa.
Como nasci loira e por mais que pinte o cabelo, às vezes as origens revelam-se, em vez de chegar a casa e ficar
caladinha, não. Contei ao trio de "atrasados" que tenho em casa a conversa do médico. E fui gozada o serão todo.

- Mãe olha para o meu dedo.
E eu olhava, mas quando o dedo chegava perto, um dos olhos fugia sempre. É o tal estrabismo divergente alternado.
- ...inha, olha para mim com os dois olhos, se faz favor.
A sério!? Os de fora eu tenho que me calar, bom mais ou menos, mas os de casa?
Eu que trato deles com tanto carinho. Cambada de ingratos.
Só a gata é que não me gozou. O que  se explica, provavelmente, pelo facto de ser surda que nem um portão.
Sim, porque aposto o que quiserem que se ela ouvisse havia de se juntar ao resto do bando.
Depois conto-vos como foi usar óculos pela primeira vez cá em casa.

Eu e o chocolate

Pronto, eu confesso.
Eu não como chocolate.
Não, não estou a fazer dieta. Só não gosto, pronto. E também já sei o que estão a pensar: "Que estranha, coitada, quem é que não gosta de chocolate?". Eu não gosto e não tenho culpa e dava-me imenso jeito gostar, mas não sou capapz, já tentei e tudo e acho uma coisa absolutamente nojenta.
Quando era pequena devia ser a única criança que deixava os chocolates estragarem-se no armário.
Acho o chocolate uma coisa nojenta. Que me desculpem os chocodependentes.
Claro que quando fui mãe tive que abrir um bocadinho os meus horizontes. Afinal as miúdas não têm culpa de ter uma mãe tão estranha. (Isto é uma definição delas, não minha).
Mas de certa forma até concordo. E já me chamaram coisas piores.
Esta coisa do chocolate já me trouxe alguns dissabores.
Tenho uma história:
Estão a ver aqueles jantares, mais ou menos formais (neste caso mais), em que não conhecemos bem os donos da casa? E em que anda um empregado de casaquinho branco e guardanapo no braço, a servir à mesa?
Sim, ainda há pessoas assim, o que é óptimo. Tenho que dizer que eu própria não me importava de ter um cá em casa. Havia de me dar um jeitão.
Num desses jantares, quando começaram a servir a sobremesa, eu ia desmaiando.
"Souflé de chocolate!"
E não havia maneira de escapar. A dona da casa, muito simpática:
- Vai adorar. Tenho a certeza.
E eu a ficar pálida.
E o meu "chatinho" a rir-se do outro lado da mesa. A rir-se discretamente, mas ainda assim... a rir-se. Quando devia estar a sofrer comigo. E a entrar em pânico. Como eu!!
Enfim, lá me apresentaram o souflé.
E ficaram a olhar para mim na expectativa da minha prezada opinião. Às vezes esta coisa de ter fama de perceber alguma coisa de cozinha não dá jeitinho nenhum, como neste caso por exemplo. As pessoas ficam sempre à espera que tenhamos uma opinião fantástica sobre as coisas. 
E eu absolutamente em pânico.
Tive que ser muito corajosa e levar um pedacinho muito delicado do dito cujo à boca. E rezar.
Ah pois é, quando é preciso até eu... Não acredito que surta grande efeito, até porque de repente as minhas relações com o altíssimo não são muito regulares, mas tentar não custa.
Enfim, fiz o meu melhor sorriso, (dentro das circunstâncias), lá consegui fazer de conta que estava a apreciar,
(sou uma grande actriz), e no fim dizer que estava maravilhoso.

E devia estar. eu é que sou a pessoa menos própria para apreciar tal delicadeza gastronómica. Ainda se fosse um arroz doce...
Nesse dia descobri que os souflés podem ser muito úteis nestas situações. É que bem mexidinhos desfazem-se e
desaparecem do pratinho praticamente sem deixar marca. Por isso e com recurso a algum jeito lá consegui não engolir nem mais um bocadinho.

Imaginem que era mousse. Estava tramada. Mesmo muito.
Mas isso não acontecia. Sabem porquê? As pessoas finas só servem mousses assim de manga, ou camarão ou coisas do género. E felizmente eu dessas, até sou rapariga para pedir bis.
Tenho outras histórias de chocolates. Mas ficam para o próximo post.
(publicado originalmente em setembro de 2011)

Apresentação

Como toda a gente que me conhece sabe, tenho sempre imensas teorias sobre as mais variadas coisas que vão
acontecendo à minha volta.

Às vezes não tenho é com quem as partilhar, até porque as minhas duas filhas já estão fartinhas de me ouvir e a gata é surda.
Não comecem já a pensar que sou uma "pessoínha" amarga e solitária.
Sou muito bem resolvida, tenho marido, 2 filhas e uma gata. Esta última é aliás uma peça muito importante e
objecto de inúmeras teorias.

O problema é que as minhas teorias às vezes são um bocadinho polémicas e as minhas filhas sairam à mãezinha e contestam tudo.
Por isso pensei: "O melhor é passar as minhas teorias mais em silêncio".
E aqui estou eu.
Divirtam-se e...
contestem!!!

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