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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Aceitação

No fundo tudo se resume a aceitação.  Aceitarmos os outros e sermos aceites por eles. Mesmo que achemos que não, que estrebuchemos e gritemos, tudo se resume a aceitação.

E o pior é quando sentimos que apesar de todos os nossos esforços não conseguimos que alguém nos aceite. O sentimento de rejeição é lixado, com F muito grande. O sentimento de rejeição é como uma espinha de carapau enfiada na garganta, que por mais côdea de pão que se coma não desce e continua a arranhar. Neste caso arranha o ego, não a garganta. Mas arranha.

Pensando bem talvez me tenha esforçado demais por ser aceite, talvez devesse ter relativizado as coisas e mantido uma distância de segurança. Talvez não devesse ter gostado tanto, ter tentado tanto, ter perdoado e cedido tanto.

É uma questão de feitio e o meu leva-me a tentar que todas as pessoas de quem eu gosto sejam mesmo felizes. Mesmo que para isso eu engula sapos do tamanho de elefantes. Na verdade tenho uma capacidade estúpida de passar por cima de coisas que me magoam para não magoar outras pessoas. Até hoje, que me lembre, cortei com muito poucas pessoas na minha vida. As mais difíceis, mas também as que me magoaram para além do limite do razoável, porque tocaram nas minhas filhas que são o limite máximo do que eu sou capaz de aguentar. De resto vou perdoando, mesmo quando parece que não, quando estrebucho, resmungo, refilo, mas vou fazendo, vou cedendo, vou esquecendo.

Infelizmente para mim também me vou magoando cada vez mais e ficando mais e mais irritada comigo por não seguir o meu instinto natural de deitar cá para fora o que estou a sentir, de não pôr tudo em pratos limpos, como seria natural em mim, de não descer do salto alto e mostrar que estou irritada, triste e muito, mas muito, muito magoada.

Tenho este hábito estúpido de tratar as pessoas de quem gosto bem, de as mimar, de gostar de as ver sorrir. Para mim um sorriso de quem amo vale um euromilhões e por esse sorriso muitas lágrimas me vão caindo quando o coação não aguenta mais.

Estou mesmo triste com isto tudo. Anos e anos a tratar bem as pessoas, a mimar, a ser educada, generosa, a pôr-me em segundo plano pela felicidade de pessoas de quem gosto mesmo muito e no fim, acabar por perceber que por mais que me esforce serei sempre uma estranha.

Talvez seja mais triste para mim porque tenho uma noção muito romântica de família, sempre condenei algumas pessoas do meu sangue por não apoiarem os seus, por não darem tudo pela harmonia. Mas na verdade, olhando para trás, talvez tivesse feito tudo de outra forma. Talvez não tivesse sido tão aberta, tão generosa.

Neste momento não estaria tão triste. Estou triste, muito triste. E não posso contar a ninguém porque se o fizesse ia mesmo magoar outras pessoas a quem amo muito e isso não posso de todo fazer.

Só posso estar cinzenta como o dia de hoje e esperar que um dia as coisas sejam diferentes. Mas no fundo, eu sei que não ser.

Passei a minha vida toda com a sensação de não pertencer aos lugares onde estou, de não me enquadrar, de não ter o direito de estar… As minhas filhas são a única família que eu tenho. Por mais que eu pense que não é assim, a verdade é que é.

Tão triste, tudo isto. Tão irremediavelmente triste. Tão inútil continuar a chorar.

Tenho quase quarenta e sete anos (faltam dois dias) e o síndrome do Calimero apanhou-me de surpresa. Na verdade tenho andado a camuflá-lo debaixo da casquinha do ovo. A casquinha partiu-se. Não quero mais. Mas também sei que se fizer alguma coisa para mudar vou perder pessoas muito importantes na minha vida.

Amanhã será melhor. Tenho a certeza. Ainda que hoje o meu coração se recuse a cantar… O que só muito raramente acontece. Aconteceu hoje.

Amanhã é outro dia.

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