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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Depilação definitiva (Como uma tentativa de ficar mais bela pode ser perigosa)

Aconteceu há mais ou menos um ano. Mais propriamente no início de agosto de 2011. 

Uns meses antes tinha começado a fazer umas sessões de depilação definitiva mesmo em frente ao meu prédio. Sou uma pessoa que para determinados assuntos precisa de muita empatia com quem tem à frnete e como estava a depilar virilhas, meia perna e axilas, era mesmo fundamental gostar da menina, chama-se técnica.

A técnica com quem eu costumava fazer as minhas sessões estava grávida e acabou por ficar em casa para ter o bebé antes de eu acabar a minha luta contra o pêlo.

A outra técnica que existia no espaço, embora simpática não era assim uma pessoa com quem tivesse empatia e por isso interompi as sessões. Fiquei para aí a 40% de exterminar os desgraçados dos pêlos, o flagelo das mulheres.

Uma das minhas filhas andava a fazer um tratamento à coluna e mesmo ao lado do osteopata onde ela ia descobri um instituto com aqueles pacotes que nos parecem logo uma maravilha, sessão de depilação, pressoterapia e mais uns tratamentos ao rosto e com um preço fantástico. Achei a coisa maravilhosa. ASNEIRA!!! Mas isso só descobri depois.

Entrei e falei com a técnica e gostei logo dela o que me levou a avançar com o caso. Paguei um pacote de dez sessões e, como se diz na minha terra, segui para bingo.

Fiz uma primeira sessão e correu tudo lindamente. Esperei até o pêlo voltar a crescer, o que no meu caso ainda leva algum tempo (sou meio para o loira) e voltei a marcar.

Informaram-me que tinha saído do franchinsing onde estavam inicialmente e que aguardavam novas máquinas que deviam estar a chegar e pedram-me para aguardar uns dias. Tudo bem.

Uns dias depois ligaram-me e marquei a segunda sessão, que haveria de ser a última.

Lembro-me que tinha regressado de férias uns dias antes e que estava assim um daqueles dias em que a temperatura devia rondar os 40 graus, mais coisa menos coisa.

Lá fui eu antes de almoço até ao instituto e fiz primeiro os tratamentos de rosto e corpo, deixando como habitualmente a depilação para o final. 

E foi aí que começaram os problemas. A técnica começou por me preparar com o gel nas pernas e começou a fazer os disparos.

Eu nem sou uma pessoa piegas e já tinha feito umas quantas sessões e nunca me tinha queixado de nada, mas naquele dia comecei logo a queixar-me. A menina foi ajustando a intensidade dos disparos até eu parar de me queixar e no final da perna direita estava já um bocadinho ansiosa e decidiu tirar-me logo o gel da perna e passar-me um creme calmante porque eu continuava a queixar-me e tinha um ardor intenso e uma dor igual à que temos quando nos queimamos no forno, ou coisa do género. 

Tenho que confessar que na altura não associei a dor que estava a sentir a queimadura, achei que estava mais sensível, talvez no período de ovulação, pensei e não liguei muito.

Passámos para a perna esquerda onde tudo correu melhor até porque a máquina já estava regulada, claro.

Decidi ficar-me pelas pernas e não depilar as axilas nem as virilhas, o que se veio a revelar a única decisão sensata que tomei em relação a este assunto.

A menina estava estranhamente (achei eu) perturbada com as minhas queixas e até a tranquilizei, dizendo-lhe que devia ser eu que estava mais sensível e que não se preocupasse.

Saí do instituto e mal o sol me tocou nas pernas, estava de calções, senti uma dor intensa e fiquei um bocadinho alarmada. As marcas na minha perna direita estavam de um vermelho intenso que nem o meu bronzeado de agosto disfarçava. E doía. E não era pouco.

Moro a cinco minutos de carro do instituto e quando cheguei a casa e olhei para a minha perna apanhei um dos maiores sustos da minha vida. As marcas estavam a criar bolhas - eram queimaduras de primeiro e de segundo grau, segundo soube depois.

Tenho alguma noção de primeiros socorros e já tive um restaurante, onde as queimaduras fazem parte da ordem do dia. Por isso, enrolei gelo num pano e coloquei sobre a perna até deixar de sentir dor e em seguida apliquei uma generosa camada de Biafine (uma pomada específica para queimaduras e que aconselho toda a gente a ter em casa). E outra camada, e outra e outra. A minha pele parecia uma esponja, mal o Biafine lhe tocava era imediatamente absorvido. Numa tarde gastei quase um tubinho de pomada. E as dores não havia meio de passarem e as bolhas já eram de um tamanho considerável.

Marquei uma consulta de dermatologia para o dia seguinte, completamente em pânico e a fazer contas à minha vida. Eu não gosto de calças e sou uma menina, menina, de vestidos, saias, calções, enfim...

No dia seguinte de manhã dirigi-me ao instituto e a menina quando viu a minha perna largou-se a chorar. Tive pena dela, coitada. Obviamente não lhe deram a formação necessária paratrabalhar com a máquina em questão e a patroa dela para variar não estava. Ela ligou-lhe até porque exigi a devolução do meu dinheiro, o que foi feito. Posso dizer que a dona do espaço nem se preocupou em saber bem como é que eu estava. Só queria mesmo saber se eu ia ou não apresentar queixa. 

Vim-me embora esgotada com o esforço de me manter calma no meio de tudo isto e de uma noite sem dormir porque não conseguia ter a perna debaixo do lençol, porque tinha medo de rebentar as bolhas, porque me doía a perna, enfim...

Fui à médica da parte da tarde e foram-me diagnosticadas queimaduras de primeiro e segundo grau e fiquei a saber que podia contar com um mínimo de um ano, se a minha pele reagisse bem, até a poder voltar a mostrar a perna. E o pior de tudo: nada de sol, nada de praia, nada de sair à rua com a perna descoberta.

A sério? Eu? Em pleno verão vestir calças é para mim uma daquelas torturas que não desejo a ninguém.

Cheguei a casa a chorar, estava completamente desesperada. Senti-me violada e privada do meu direito de ser eu por completo.

Dramático? Concordo, mas foi o que senti e contra isso não posso fazer nada.

Fiz uma busca ao roupeiro e cheguei à conclusão que só tinha umas quantas calças de ganga que não eram viáveis por serem demasiado rijas e agressivas e eu tinha de ter cuidado para não rebentar as bolhas das queimaduras e as que trazia vestidas que são numa espécie de cetim.

Por isso no dia seguinte fiz-me à vida e fui comprar dois pares de calças.

E nesse dia contei ao meu marido que não estava em casa e que quando viu a minha perna ficou horrorizado e começou a insistir que eu tinha que fazer alguma coisa: "Mete-os em tribunal. Isso é inadmissível".

O verão foi decorrendo com uns quantos traumas à mistura. Cheguei a não sair de casa porque olhava para o roupeiro e apetecia-me um vestido e não podia e por isso preferia não sair. Ficar em casa parecia-me a melhor opção. Sair à rua porquê se não me sentia eu dentro da minha pele?

Para resumir a história acabei por seguir o conselho do meu mardo e avancei com uma acção contra o espaço em questão. Até hoje a dona nunca me ligou para saber como é que eu estou, se recuperei ou não. A funcionária sim, ligou-me várias vezes e acabei por descobrir que perdeu o emprego por causa disto tudo.

No início da primavera comecei com ajuda de base e muita coragem (garanto que foi mesmo precisa) a usar uns vestidos com meias fininhas (até aí só opacas) e finalmente tive uma boa notícia.

Depois de um inverno a pôr religiosamente um creme pigmentante nas partes afetadas (como podem ver na foto eram bastantes) a dermatologista liberou as estadias ao sol. "Factor de proteção 30 ou 50, dependendo do calor, nada de estar ao sol nas horas mais quentes, se notar alguma alteração mais escura na pele sai imediatamente do sol".

Por isso este verão apanhei sol. As marcas passaram? Não totalmente e duvido que passem completamente, embora ainda esteja decidida a tentar um tratamento de pigmentação da pele em clínica que descobri recentemente. Mas ainda vai levar o seu tempo.

Do tribunal ainda não disseram nada, mas não é isso que me perturba.

Por acaso foi numa perna e emboratenha sido uma coisa que me afetou bastante e só quem me conhece sabe como para mim foi difícil andar de calças meses a fio. Conheço pessoas que nunca me tinham visto de calças desde que me conhecem e algumas conhecem-me há bastante tempo.

O facto é que hoje já olho mais ou menos serenamente para o espelho, mas durante muito tempo chorava de cada vez que tinha de pôr o creme pigmentante, tinha pesadelos em que gritava e implorava para não me queimarem e durante semanas tive muita dificuldade em dormir.

Tudo isto me afetou mais do que aquilo que eu poderia pensar e mais do que seria desejável.

E esta gente continua impune e com a porta aberta e continuam a dormir sem problemas de consciência.


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