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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

A propósito das malas femininas

Cá em casa é recorrente toda a gente me dar na cabeça porque as minhas malas (supermercados, como o meu marido lhes chama), são pesadíssimas e gigantes.

Ah, pois são! E esta gentinha (marido e filhas) estranham o quê?

Tudo começou quando nasceu a primeira filha. Sempre que saía precisava de levar toalhitas, água, uma muda de roupa, fraldas, e eventualmente, alguma comida, tipo bolachas, fruta, coisas afins. Como todas as mães comecei por ser muito organizadinha e levar, para além da minha mala e da miúda, um saco daqueles de bebé, cor-de-rosa, a condizer com a criança, onde levava tudo o que uma filha pode precisar, que inclui também alguns brinquedos, chuchas, etc.

Como nunca fui grande fã de carrinhos de bebé, se calhar porque não tinha jeito nenhum para abrir aquela geringonça, andar com uma filha, um saco, uma mala e às vezes mais uns sacos ao colo começou a revelar-se desastroso para as minhas costas e traumatizante em matéria de equilíbrio. Quando equilibrava a mala, caía o saco, quando equilibrava o saco, caía a mala e, felizmente, consegui que nunca caísse a criança, sabe Deus como…

Comecei a comprar umas malas maiores para conseguir levar tudinho e ter somente que equilibrar duas alças no ombro. As mochilas, de que fui adepta durante muito tempo, revelaram-se excelentes aliadas, excepto na hora de precisar de tirar a carteira, ou as toalhitas, ou um lenço, ou outra coisa qualquer e, muitas vezes não ter onde a pousar. Eu tive crianças no tempo em que as casas de banho públicas não tinham uma invenção maravilhosa a que chamam fraldário. A minha vida não foi fácil.

E tudo piorou quando nasceu uma segunda filha. As malas cresceram mais um bocadinho. Com a agravante de a segunda filha ser uma badalhocazita do pior quando era pequena. Entretanto cresceu e ficou uma criatura adorável e super asseadinha.

E conforme foram crescendo as coisas foram piorando. Passei por vergonhas de tirar Barbies da mala quando só queria tirar a carteira para pagar um café e nem tinha ao colo uma criança que justificasse a presença da loira escultural dentro da minha mala. Durante anos se virasse uma das minhas malas ao contrário era certinho que encontrava os sapatos de salto alto perdidos da Barbie, uma ou outra tiara, variadíssimos e originais ganchos de cabelo (duas filhas), elásticos, fitas, bandeletes, meias (?), chuchas, toalhitas, fraldas (nem sempre limpas), balões, brinquedos vários, roupa suplente de vários tamanhos e mais tarde cuecas com a Margarida, a Minnie, a Barbie, etc…

Se eu tivesse contabilizado todas as coisas estranhas que passaram pelas minhas malas desde que as minhas filhas nasceram… Cheguei a ter um gelado, embora tenha sido um acidente. Talvez não um acidente, mas uma das primeiras manifestações de que a minha filha mais nova ia ser uma miúda muito arrumadinha. “Vou guadar o gelado, mãe”. Mãe à beira da exaustão: “Está bem filha”. Mãe no dia seguinte quando meteu a mão na mala: “Mas que raio de porcaria é esta? O que é que estas duas meteram na minha mala?” Mãe lembra-se da conversa da tarde anterior. Mãe começa a pensar que emigrar é uma coisa que talvez seja boa para a sua saúde mental. Enfim…

Entretanto cresceram e agora usam as suas próprias malas, mas as suas necessidades em relação à minha mala não acabaram. Não senhor.

Agora é: “Mãe, tens creme? Tenho a pele seca”, “Mãe, tens base? Pareço uma morta”, “Mãe, tens toalhitas?, “Mãe, tens água?”, “Mãe, tens lenços?, “Mãe, tens…”. Seja lá o que for que precisem a minha mala continua a ser muito procurada.

Para além delas ainda tenho o meu marido: “Gracinha, tens lenços?”, “Gracinha, tens alguma coisa para limpar os óculos?”, “Gracinha, podes guardar-me a carteira e o telemóvel?”, “Gracinha…”. Ganhei outro necessitado do conteúdo das minhas malas.

E depois ainda existo eu. Eu preciso da carteira, de três pares de óculos (ler, ler de sol, de sol normais), de lenços, toalhitas, base, espelho… Eu sou mulher e preciso sempre de toneladas de coisas.

Até há pouco tempo as minhas malas eram o chamado “granel” e não o organizado. Era mesmo muito desorganizado. Entretanto fiz uma incursão num chinês e comprei três adoráveis (são mesmo adoráveis) bolsas de três tamanhos diferentes.

A maior leva coisas como amostras de cremes, estojo de costura miniatura, toalhitas para limpar os óculos (daquelas húmidas), adoçante, sal (?), pimenta (?), fósforos, palitos, tesoura, escova e pasta de dentes, pensos rápidos, lima de unhas, açúcar (?), etc.

O tamanho intermédio tem o pó compacto (imprescindível para quem tem a pele oleosa como eu), um espelho, um pequeno pincel, toalhitas desmaquilhantes e papel absorvente para peles oleosas. Ah e um baton, embora raramente o use.

A mais pequena tem comprimidos para a dor de cabeça e para as enxaquecas e outros que possam ser necessários em emergência.

Para além das três adoráveis bolsas, tenho toalhitas daquelas tipo refrescantes, lenços de papel, um leque (menopausa), as chaves de casa e do carro, a carteira (gigante, claro), um ou dois sacos de compras, vários papéis, o telemóvel e um pacote de pastilhas.

Isto é o básico, porque se for para algum sítio onde seja suposto andar muito, levo umas sabrinas na mala (geralmente uso saltos altos), eventualmente água e um livro. Agora imaginem o peso conjunto de tudo isto nas costas de uma pessoa.

Faz o que eu digo...

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... Não faças o que faço. Este parece ser cada vez mais o lema dos nossos governantes e afins.

No último sábado fui com as minhas filhas visitar o Jardim Botânico Tropical, em Belém, ali mesmo ao lado do Mosteiro dos Jerónimos.

Primeira tentativa de entrada - falhada. Não tinha dinheiro comigo e curiosamente não existe multibanco no JBT. “Irritei-me. “Vocês vivem na pré-história, ou quê? Mas onde é que raio não existe multibanco hoje em dia?”. Já sei, já sei. Tenho um mau feitio de cortar à pedrada. Temos pena. Convenhamos que em pleno século XXI é um bocadinho ridículo que a única forma de pagar seja com dinheiro. É que o valor nem era muito, nós éramos quatro e o total das entradas perfazia 8 euros, mas eu tenho o péssimo hábito de andar sem dinheiro. Desculpem lá, mas até o minimercado da minha rua tem multibanco e não nos torcem o nariz se quisermos pagar com ele. Gosto mesmo da minha rua.

Lá fui com os três jovens atrás em busca do multibanco mais próximo. Levantei dinheiro e voltámos.

Segunda tentativa: “Preciso de uma fatura se faz favor!” “Nós aqui não passamos faturas. Posso é passar-lhe uma fatura pró-forma (o exemplar acima, que na verdade não passa de uma folha a4, escrita à mão e assinada pelo funcionário da receção, sem qualquer tipo de validade legal, naturalmente). Depois enviam-lhe a fatura para a morada que nos indicar. Quer preencher o impresso?” “Naturalmente, preciso da fatura, é obrigatório pedir fatura, não é?”.

Estive uns bons cinco minutos a ver o funcionário a debater-se com os dados da futura fatura, que depois hei-de contar se e quando recebi. No final dobrou diligentemente a folhinha em 4 e entregou-ma.

Vamos lá a ver se nos entendemos - Então há quatro anos que este governo e os anteriores, mas este em especial, anda a moer-nos literalmente a cabeça e a paciência para pedirmos faturas em tudo o que e sítio, ameaçando toda a gente com as fugas fiscais e etc. E depois, quando uma pessoa vai visitar um espaço sob a alçada do governo, a primeira coisa que descobrimos é que quem devia dar o exemplo não está em condições de fazer cumprir as suas próprias leis. A sério? Como é que pretendem “educar” o povo?

Fiquei a pensar nos senhores lá do governo como aqueles pais que dão grandes lições de moral aos filhos, mas que depois falham nos exemplos quotidianos. Tipo: “Zézinho não tires macacos do nariz”. E depois vemos o pai do Zézinho ao volante do carro a limpar afincadamente o salão de baile enquanto o puto o observa sentado na cadeirinha, devidamente homologada pelas normas da CE, a pensar que tirar macacos do nariz deve ser um privilégio de adulto.

É a mesma coisa, salvo seja. Então como é possível que as mesmas pessoas que nos obrigam a estar atentos à fraude fiscal, que nos querem obrigar a pedir fatura até da bolinha de Berlim que comemos na praia, não consigam uma coisa tão simples como passar uma faturazinha de 8€ a uma mãe de família cumpridora das normas legais em vigor.

E depois admiram-se do meu mau feitio. Eh pá, desculpem lá, mas se continuam a provocar-me desta maneira até sou capaz de piorar de feitio.

Ah, já agora, o JBT é um sítio bem giro. Só é pena o Palácio dos Condes da Calheta não estar aberto ao público.

 

A primeira vez

Não, não é essa primeira vez. É a primeira vez que eu fui a uma entrevista de emprego. Era tão garota, tinha 19 anos. Não sabia nadinha de nadinha. Mas estava cheia de propósitos, projetos e força de vontade. Se calhar foi o que me safou.

Passei os três meses de verão enfiada numa escola a tirar um curso de “secretariado e práticas de escritório”, que habitualmente durava seis meses. Mas eu tinha pressa, tive sempre muita pressa na minha vida. Tinha acabado o 11º ano e queria começar a trabalhar o quanto antes. Precisava de me sentir independente, de não ter de dar explicações, de me sentir só um bocadinho mais livre. Eu nunca podia nada, festas de anos “mas quem é, nós não conhecemos”, idas ao cinema “nem penses que vais andar por aí feita vadia”, à noite “nem pensar. Era o que mais faltava”. E pronto, era a minha vida. Só saía com os meus pais ou, no máximo, com uma amiga, filha de amigos deles, mais velha e que portanto, tinha mais juízo. E foi sempre bom sair com ela, foi o que manteve alguma sanidade na minha vida.

Mas eu saí, não pensem que não saí. Tornei-me na rainha das desculpas - Trabalhos de grupo (escola não podiam dizer que não, não é?), mais trabalhos de grupo, aulas extras porque sim. Cheguei a alterar o horário no primeiro dia de aulas só para os fazer acreditar que tinha um horário mais sobrecarregado. Valia tudo para não ir para casa. E se me apetecesse ir podia sempre dizer que os professores tinham faltado. Nesse tempo ainda não tinham inventado as aulas de substituição.

Mas uma pessoa cansa-se de viver assim e começa a ficar fartinha de estar sempre a inventar, mesmo com uma imaginação prodigiosa como a minha.

Por isso resolvi que estava na altura de sair da escola e começar a ganhar o meu dinheiro. Estava mesmo fartinha daquilo. “Vais o quê? Deixar de estudar? Mas tu estás doida? Vais é para a faculdade tirar um curso para seres advogada”. Não sei porquê mas a minha mãe sempre achou que eu dava uma ótima advogada. Se calhar é só porque sou muito refilona e tenho sempre muitos argumentos. Não sei, nunca lhe perguntei.

Convenci a escola a deixar-me fazer o curso em metade do tempo. Tinha mesmo que despachar aquilo durante o verão, queria estar a trabalhar o mais rápido possível. Fiz o meu curso e terminei com uma nota muito próxima do 20. Nem foi difícil, estava a lutar pelos meus objetivos e sempre fui muito persistente. Tive tanta sorte. No dia a seguir ao final do curso, ligaram para a escola de uma empresa de Sacavém (eu morava perto de Alverca) e pediram uma pessoa despachada (eu), espevitada (EU), que tivesse acabado o curso com boa nota (eu) e que quisesse começar a trabalhar (eu). A experiência não era importante para eles, queriam ensinar a pessoa desde o início. Ligaram-me da escola a perguntar se eu estava interessada. Nem tinha telefone em casa, ligaram para casa de uma vizinha, que me chamou e lá me deram o recado. Deram-me o número de telefone para eu contactar a empresa. Liguei para lá logo de seguida: “Acha que pode vir cá amanhã para a conhecermos?”; “Posso ir hoje, dê-me só tempo para chegar aí”. Eu não tinha carta e morava quase no fim do mundo, mas lembrei-me que o meu pai estava de folga em casa e de alguma forma ia conseguir convencê-lo. Consegui. Lá nos metemos no carro e em menos de uma hora, lá estava eu, nervosa, nervosa, consciente que não sabia nadinha de nadinha, que nunca tinha estado numa entrevista de emprego… Controlei os nervos, toquei à campainha. Receberam-me os dois, um casal que eram os donos da empresa de som profissional, na avenida mais central de Sacavém. Ele gostou logo de mim, acho que percebeu logo que eu era despachadinha, ela teve algumas reticências. “Moras um bocadinho longe, vais chegar muitas vezes atrasada…”. Atrasada, eu? “Nunca”, garanti, “ a não ser que os transportes me falhem. Eu odeio chegar atrasada (até hoje). Acho que e uma grande falta de respeito para quem está à nossa espera”.

Ela continuava reticente e por isso arisquei: “Olhe, vamos fazer assim, contrata-me por um mês à experiência (acho que fui eu que inventei esta coisa da experiência), se eu chegar atrasada no final do mês manda-me embora e nem tem que me pagar. Parece-lhe bem?”. Ficou impressionada, vi nos olhos dela que ficou. O marido riu-se e disse-lhe: “Vês, eu sabia que era ela que nós estávamos à procura”. “Podes começar amanhã?”. “Posso começar hoje, se quiser, deixe-me só ir lá fora dizer ao meu pai para se ir embora”. Não foi preciso, ficámos para o dia seguinte. “Estás cá às 9 horas”. Estive lá às 8h20m. Tinha pavor de chegar atrasada.

24 de setembro de 1985 marcou a minha entrada no mundo do trabalho. Tão bom, estava tão feliz, tão cheia de vontade de aprender, de me tornar mais independente. Comecei a ganhar quinze contos, qualquer coisa como 75 euros. Era uma miséria de ordenado, mesmo naquela altura, mas eu também não sabia fazer nadinha e por isso, fiquei muito feliz. No primeiro dia mandei duas chamadas telefónicas para o espaço, não sabia funcionar com aquilo e era muita coisa nova para aprender. A minha primeira patroa, Lurdes, foi fantástica comigo. Ensinou-me muito do que sei sobre o funcionamento de uma empresa, de um escritório, sobre ser uma boa secretária. O resto das pessoas que lá trabalhavam eram todas mais ou menos da minha idade. Uma equipa muito jovem, trabalhavam na fábrica, ao lado do escritório. O Eng.º António José era uma espécie de génio, capaz de ir trabalhar de pijama, se a mulher não o mandasse vestir-se. Mas era muito inteligente, concebia todos os equipamentos, mesas de mistura, equalizadores, amplificadores, colunas de som, monitores de palco, etc, que eram produzidos na fábrica.

No último dia de setembro comecei a ver os meus colegas a entrarem no gabinete da Lurdes e a saírem com os seus envelopes na mão. Nessa altura ainda se recebia muito em dinheiro. Era bem mais interessante do que estas modernices das transferências bancárias. O dinheiro tinha outro valor. Eu não estava à espera de um envelope. Só tinha trabalhado seis dias e tinha um acordo de um mês. A Lurdes chamou-me e estendeu-me um envelope e um recibo para assinar. Fiquei a olhar para ela com cara de parva. “Assina miúda, que bem o mereces. Estás liberta do nosso acordo. Já percebi que tu só és novinha na idade, tens muito juízo nessa cabeça e tens-te portado muito bem”. Fiquei tão orgulhosa. De tudo. Das palavras dela e de receber o meu primeiro salário, dois contos e uns trocos, uns dez euros, por aí. Cheguei a casa com um sorriso de orelha a orelha. Comprei o meu passe para o autocarro e ara o comboio, comprei uma roupa nova e guardei o resto. Abri a minha primeira conta bancária, no BES, que nessa altura ainda se chamava BESCL (Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa) e comecei a depositar todos os meses um bocadinho do meu ordenado. Nessa altura conseguia poupar-se dinheiro.

Trabalhei na Acutron durante um ano e meio, mais ou menos. A empresa comprou novas instalações e mudou-se para mais longe e era quase impossível ir para lá sem transporte próprio. Um dos clientes, que ia ficar com as instalações antigas perguntou-me se queria trabalhar com ele e foi assim que transitei para outra empresa e conheci o Paulo, mas essa é toda uma outra história.

Tinha 19 anos

Tinha 19 anos.

Na loja de vestidos de noiva, a senhora, muito solícita, ia apertando a cada prova a cintura do vestido e repetia: “Parece que vai fazer a primeira comunhão. É tão miudinha”.

Tinha 19 anos.

Tinha começado a trabalhar em setembro e o casamento estava marcado para 28 de dezembro desse mesmo ano. O espelho devolveu-me a minha imagem. Fiquei a olhar para mim como se não me conhecesse. Onde estava o meu sorriso? A minha alegria? O brilho do meu olhar? Sempre me tinham dito que os meus olhos eram um livro aberto para a minha alma, que eram transparentes. Não me reconheci na imagem daquela miúda triste e desanimada que vestia um vestido de noiva, que parecia de primeira comunhão. Foi nesse momento que tomei a decisão de mudar as coisas. Já sabia que não ia ser fácil, mas tinha mesmo que ser. Foi aí que tudo começou a mudar.

Tinha começado a namorar com o F. com 14 anos durante as férias de verão no Alentejo. Ele era bem mais velho do que eu, acho que mais uns oito anos. Esse foi o verão da minha afirmação. Finalmente tinha deixado de usar óculos, cortei o cabelo, comprei roupas giras e senti-me, eu própria, muito gira. É um facto que a beleza também vem de dentro, ou então foi a minha recém descoberta autoconfiança que ajudou a que tudo acontecesse.

Conheci-o na aldeia, durante o verão. Ele fazia parte do grupo de amigos do meu primo. Não era muito alto, mas eu sou baixinha. Tinha olhos verdes e um ar engraçado. Também me deve ter achado piada e começámos a conversar e a trocar olhares. Descobri que tinha algum jeito para o jogo da sedução. Somos tão parvas com 14 anos. Antes do final do verão trocámos os primeiros beijos e as respetivas moradas. Nessa altura, estamos a falar de 1980, não havia telemóveis, a internet ainda não tinha sido inventada e nem toda a gente tinha telefone fixo em casa, por isso ainda se escrevia muito. Dei a morada da loja de uma amiga porque já sabia que os meus pais iam investigar quem era o tal que me andava a escrever. Infelizmente não contei com os pais da minha amiga. Demorei-me a ir buscar uma carta e a senhora, muito bem intencionada entregou-a à minha mãe. Um dia quando cheguei a casa estava o meu pai de carta, naturalmente aberta, em punho.

- Quem é este? De onde é que vocês se conhecem? Quais são as intenções dele contigo? De quem é que ele é filho?

Sei lá de quem é que ele é filho. O que é que isso interessa? Nem namorava com os pais dele… Intenções? Que intenções? Namorávamos, só isso.

- Namorar é para casar. Eu só namorei o teu pai. (Será?) Ele que fale connosco se quer namorar contigo. E a partir de hoje escreve cá para casa.

Informei o interessado, que mais velho, achou tudo muito bem. E não percebi onde me estava a meter, nem pouco mais ou menos.

Tenho que confessar que tive outros namorados. Nunca lhe fui fiel. Lamento, mas tinha 14 anos. E ele estava no Alentejo. Acho que na minha cabeça o namoro só era oficial quando eu lá ia. Começou a escola e descobri que as minhas mudanças davam na vistas. Tive muitos namorados nesse e nos anos seguintes. Ele continuava no Alentejo e continuávamos a namorar, por carta, claro, e sempre que eu ia ao Alentejo. Agora com a bênção parental.

Acho que nunca gostei verdadeiramente dele, era demasiado miúda. Nunca passámos de beijinhos e pouco mais. Nunca o deixei avançar muito, era muito púdica, dizia ele, eu simplesmente não tinha vontade de avançar mais. Já tinha lido muitos romances e achava que ainda não sentia o necessário por ele para avançar para coisas mais íntimas. É o que dá ler muitos livros, a pessoa fica com ideias…

Acabei o 11º ano e passei o verão a tirar um curso de “secretariado e práticas de escritório”, que me permitiu começar a trabalhar em setembro. Os meus pais, os dele e o próprio marcaram o casamento. Os pais deles deram-lhe o dinheiro para a entrada de um apartamento, um rés-do-chão com quintal a menos de cinco minutos da casa dos meus pais, e os meus pais mobilaram-no com uns móveis em “estilo antigo” absolutamente terríveis. Começámos (começaram, nem sei) a mandar convites, a escolher restaurantes, fotógrafos e o vestido de noiva…

Comecei a perceber o que estava a acontecer. Caí na real, como dizem os brasileiros. Caiu-me a ficha, como se diz agora.

Perdi o sorriso, a alegria, a vontade de tudo… No sítio onde eu trabalhava a minha patroa, uma pessoa fantástica começou a apertar comigo para lhe contar o que se passava. Contei-lhe tudo, mas tinha a sentença lida: “Se não te casares sais de casa”. E eu ganhava uma miséria e, convenhamos, continuava a ser uma miúda, tinha 19 anos. A minha filha mais nova tem agora 20 e não consigo imaginá-la nem perto de um altar. A minha patroa foi maravilhosa: “Se o teu pai te puser na rua, vais para minha casa até resolveres as coisas. Ajudas-me com as miúdas. Não ficas na rua, não te preocupes”. Ganhei coragem. As minhas colegas de trabalho também me ajudaram, aliás foi na casa de uma delas que me refugiei.

Falei com o noivo, disse-lhe que não conseguia continuar com aquela farsa, que não gostava dele, que era muito miúda, que ainda queria fazer muita coisa. Ficou violento, levantou-me a mão, tive de me defender, levantei um joelho, acertei-lhe num sítio delicado e fugi. Corri para minha casa, contei que me tinha tentado bater, perguntaram-me porquê e repeti a história: “Não consigo casar com ele, tenho nojo dele, não suporto que me toque, não aguento o cheiro dele, não gosto dele”.

Insultos, insultos, insultos, ameaças, ameaças e mais ameaças. “Casas a bem ou a mal. Não me vais envergonhar na minha terra, que nunca mais lá vou poder pôr os pés. O que é que vamos dizer às pessoas?”. As pessoas, sempre as pessoas, sempre os outros, muito mais importantes do que uma filha feliz ou infeliz.

As coisas pioraram e muito. No dia seguinte, esperei que a minha mãe saísse para a missa, provavelmente para pedir a Deus uma filha mais obediente e com menos vontade própria, e que o meu pai saísse para a tasca e saí também, com um saquinho pequenino, para não dar muito nas vistas, só com uma muda ou duas de roupa e fui direta a casa de uma das minhas colegas de trabalho. Chorei, chorei, já nem me lembro bem, já se passaram 30 anos. Fiquei lá apenas umas horas. Os meus pais fizeram uma pequena investigação e acabaram por me ir lá buscar.

Novas regras em casa: “A partir de agora se quiseres comer, compras a comida e cozinhas para ti (que novidade, desde os sete anos que fazia o meu almoço)”. O meu pai deixou de me falar a não ser que fosse para me insultar, a minha mãe andava mais ou menos na mesma. Mas o casamento ficou fora de hipótese. Menos mal.

Quando fomos começar a tirar as coisas ao tal apartamento de rés-do-chão com quintal, o F. apareceu e começou a insultar-me a mim e à minha mãe. Pela primeira, e acho que única vez na minha vida, o meu pai defendeu-me, mas se calhar foi só porque o meu tio estava lá e ele sentiu-se nessa obrigação. Ele ameaçou atirar coisas da chaminé para cima da minha mãe e eu atirei-lhe uma bela jarra de cristal à cabeça, que lhe abriu a testa. Ameaçou-me com uma queixa. Nem me incomodei a responder-lhe. Para quê?

O meu pai esteve uns dois anos sem ir ao Alentejo e a minha mãe foi lá comigo quando nasceu a minha afilhada, filha de uma irmã dela. Mas ficámos em casa da minha tia, não na nossa casa, demasiado central e exposta, e fomos a casa de um outro tio pelas ruas de “trás”, pelo meio dos campos. A minha mãe tinha vergonha e não queria “passar à porta dos pais dele”, que “não sei o que hei-de dizer às pessoas”, porque “tu só me fazes passar vergonhas”. Enfim.

Devolvi o vestido de noiva, o tal que parecia de primeira comunhão. Fiquei com um crédito na loja para futuras compras. Menos mal. Recuperei o sorriso e o brilho dos olhos.

As loiças, os tachos, os lençóis, as toalhas voltaram a ser arrumadas no sótão. Os móveis foram devolvidos e alguns transitaram para casa dos meus pais. Ainda hoje lá estão. Era de “estilo antigo”, de boa qualidade. “Já não se fazem móveis assim”. Ainda bem, são horríveis. E cheios de má energia.

Eu? Eu nunca tive vergonha de voltar ao Alentejo. Vergonha de quê? Não matei nem roubei ninguém. Não tenho que ter vergonha de querer ser feliz, pois não? Não sei se ele alguma vez casou. Cruzei-me uma ou duas vezes com ele depois disso, mas confesso que não senti qualquer remorso. Se não ultrapassou é porque é fraco de carácter e isso só dá mais razão à minha decisão de não querer casar com ele. Acho que nunca mais vi os pais dele, o que é curioso porque falamos de uma aldeia pequena onde toda a gente se conhece. Mas também não vou lá assim tanta vez.

Tinha 19 anos. Já se passaram 30 anos.

Quando percebemos que chegámos demasiado tarde...

O Facebook tem destas coisas. Encontramos pessoas que não conseguiríamos encontrar de outra forma. Pessoas com quem não falamos há muito tempo e de quem nos lembramos muitas vezes. Pessoas que fizeram parte da nossa vida nas piores alturas e de quem por um ou outro motivo acabámos por nos afastar, mas de quem não nos esquecemos e continuámos a gostar.

Há muito tempo que andava a tentar encontrar uma amiga que conheci há 20 anos num dos locais onde trabalhei. Criámos muito rapidamente uma empatia enorme e acabou por ser o meu porto de abrigo durante a fase complicada do meu divórcio. Quase que vivi em casa dela e sentia-me lá como em minha casa. A Rosa vivia com um irmão mais novo e juntos saíamos à noite, cozinhávamos (eu cozinhava), comíamos, conversávamos, brincávamos e divertíamo-nos muito. Na casa da Rosa chorei muito, ri muito, desabafei muito. Foi a minha casa de fim-de-semana durante muito tempo. Ia para lá às sextas-feiras depois do trabalho e saía na segunda-feira para ir trabalhar. No pior verão da minha vida, era o único sítio onde me sentia mais ou menos em paz.

Entretanto a Rosa começou a namorar um miúdo mais novo, engravidou, foi mãe, ficou doente com cancro de mama. Eu conheci o meu marido, mudei de casa e de vida e acabámos por ir perdendo o contacto, primeiro aos poucos e depois completamente.

Ontem encontrei o Facebook do irmão da Rosa e através dele, o dela. Enviei um pedido de amizade a ambos, respondido imediatamente por ele… Hoje de manhã, numa mensagem perguntei por ela - Faleceu. Em junho de 2013.

Acho que nunca me vou perdoar por não ter tentado encontra-la mais cedo, por ter deixado que a vida ou que fosse nos afastasse tão definitivamente. O não ter estado com ela quando precisou.

Desculpa Rosa. Desculpa ter estado longe, ter-me afastado, não ter acompanhado de perto a tua vida, não te ter procurado mais rapidamente. Desculpa.

 

E vão três…

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Eu nem gosto de futebol. Não percebo nada de futebol e nem tenho grande paciência para conversas sobre o assunto, mas aqui não se trata só de futebol. Este “puto” é o melhor do mundo. E é português. E de cada vez que ele recebe um prémio o nome de Portugal volta a ouvir-se. Três botas de ouro é obra.

É piroso? Pode ser. É bimbo? Com muito gosto, provavelmente. É vaidoso? E então? Tem razões de sobra para isso, ora essa.

Muitos parabéns Cristiano. Continua piroso, bimbo, vaidoso, mas a bater na bolinha como ninguém.

Estive a ver um bocadinho da cerimónia de entrega das botinhas de ouro e não pude deixar de reparar - na plateia, como sempre, estava a Dona Dolores, a mulher do útero de ouro, que deitou cá para fora um puto que a enche de orgulho e a todos os portugueses todos os dias. Estava o filho, Cristianinho, muito bem comportado, como os filhinhos de muita gente que diz mal do pai dele, não estariam no lugar dele.

O orgulho e a emoção na cara da dona Dolores não se fabricam, são de coração de mãe, que vê o seu menino conquistar chuto a chuto um lugar cada vez maior na história do futebol mundial. São de uma mãe que não sente necessidade de mudar porque é a mãe do melhor do mundo e continua a afirmar com orgulho que o filho ainda adora o seu Bacalhau à Brás.

Permitam-me ser lamechas, que nestas coisas de sentimentos maternais, eu admito que o sou, mas qual a mãe que não gosta de ver os seus filhos conquistarem os seus sonhos? É coisa de mãe, que os nossos meninos sejam felizes.

Muitos parabéns Dona Dolores. O seu puto pode ser o que as cabecinhas tristes e invejosas deste país lhe quiserem chamar, mas o nome dele vai ficar na história do futebol para todo o sempre como um dos melhores de sempre - o Cristiano Ronaldo, português, que nasceu na ilha da Madeira, que teve uma infância difícil e cheia de privações. Agora é o Cristiano Ronaldo do mundo, que o trata como um herói, quando tantas vezes os portugueses escarnecem dele.

E vão três… E neste caso palpita-me não ter sido só esta a conta que Deus fez.

 

Relatos que nos doem

Sou uma leitora compulsiva. Desde que aprendi a ler, com quatro anos, sim quatro leram bem, que nunca mais parei.

Com nove anos já tinha lido tudo o que Fernando Namora tinha escrito, depois de me apaixonar pelos “Retalhos da Vida de Um Médico”, que descobri através de uma série televisiva, já tinha começado a espreitar Eça e Camilo, Júlio Dinis, Almeida Garrett, com quem nunca simpatizei grandemente e até Alexandre Herculano, que nunca me conseguiu convencer a ler “Eurico, o Presbítero”.

Com o tempo fui-me dedicando a diferentes áreas, mas sempre gostei de livros verídicos, de relatos de pessoas reais, que nos contam como vivem outros povos, que nos falam dos seus costumes, de países distantes.

Ao longo dos anos, alguns marcaram-me profundamente, como “O Silêncio das Lágrimas”, escrito na primeira pessoa por Fauziya Kassindja, que relata de forma para lá de arrepiante o tema da mutilação genital feminina ou excisão feminina, que arrepia qualquer mulher só de pensar. Não dá para imaginar a dor física e psicológica de uma mulher sujeita a uma tal abominação. Infelizmente um hábito ainda muito praticado em tribos africanas em alguns casos, muitos, com consequências fatais para as vítimas.

Tenho lido sobre a China de Mao, em livros como “Cisnes Selvagens”, de Jung Chang, que me deixaram agoniada com as atrocidades a que era sujeito o povo às mãos dos soldados de Mao. A tal ponto são os relatos, que muitas vezes parei a leitura do livro por alguns dias até arranjar coragem para continuar. Não foi um livro fácil de ler, mas que um dia destes vou querer voltar a folhear.

Tenho lido sobre as gueixas japonesas, o enfaixamento dos pezinhos, enfim, sobre imensas coisas.

No sábado passado e aproveitando o bom tempo, deitei-me ao sol com “Naziran Uma Mulher Sem Rosto”, escrito pela própria com a ajuda de Célia Mercier. Li-o de uma assentada. É um relato terrível. A história de uma vítima de punição pelo ácido, que perdeu o rosto, a visão e só não perdeu a vida, quase por milagre. A história de uma mulher que viu a sua integridade física destruída pelo ciúme de uma mulher e pela ganância de um homem, com quem a haviam obrigado a casar.

Aconselho a sua leitura, é preciso cada vez mais denunciar, falar, alertar. Estamos no século XXI, pensamos que vivemos numa sociedade civilizada. Nada mais errado. Enquanto crianças morrerem na noite de núpcias por serem violadas por homens, muitas vezes com idade para serem seus avôs, enquanto meninas continuarem nos campos de engorda da Mauritânia, enquanto mulheres sofrerem de excisão do clitóris para prevenir eventuais infidelidades, enquanto existirem pezinhos enfaixados, enquanto seres humanos se acharem no direito de atirar ácido sulfúrico para a cara de uma mulher destruindo-a completamente, nunca poderemos dizer que vivemos numa sociedade civilizada.

Falta fazer tanta coisa no mundo para ser um sítio civilizado…

 

 

Lá se vai a teoria do “povo irmão”

“O Brasil foi explorado tantos anos por Portugal agora continuará sendo pelo PT! Não é à toa que a sigla de Portugal é PT! Eu votei Aécio”, escreveu a atriz brasileira Luana Piovani, no seu Twitter, alguns minutos depois de ser conhecida a vitória de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais brasileiras.

Uma frase muito interessante se prensarmos que sempre que um ator ou atriz brasileira, artista, etc., visita Portugal, as frases que escutamos nos discursos são invulgarmente: “Amo Portugal e os portugueses”; “É um povo maravilhoso, um povo irmão”; “Todo mundo me recebeu com o maior carinho”; “Me sinto em casa aqui”; “Tenho minhas origens em Portugal e sempre quis conhecer a terra do meu avô, bisavô, tetravô, tio, primo, etc”; “Me sinto português de coração”; “Quero muito voltar e conhecer melhor”; etc, etc, etc…

A própria da Luana declarou durante uma visita a Portugal: “'Adoro a comida e o carinho das pessoas pelo povo brasileiro”, afirmando também: “'Lisboa é um deslumbre, romântica e boémia ao mesmo tempo. Adoro a cerveja, as calçadas e a gente jovem sempre se cruzando”, e ainda sobre as praias: “'Adorei entrar na água. Sempre me disseram que a aqui é muito fria, mas eu não achei. Quando não é Verão, as praias do Rio de Janeiro são muito mais frias”.

Tadinha entretanto deve ter-se esquecido do que tinha dito e, no calor da derrota, deu a conhecer os seus verdadeiros sentimentos para com Portugal e o seu tão “amado” povo.

E isto é provavelmente o que todos eles pensam sobre os portugueses e são cínicos o suficiente para dizer exatamente aquilo que sabem que os portugueses querem ouvir.  Até porque se não o disserem como é que vão continuar a exportar as novelas, os cantores, os pacotes de férias e até vender as muitas casinhas que os “exploradores” portugueses têm comprado ao longo dos últimos anos no Brasil.

País irmão! Pffff!!! Que tristeza.

E para que não comecem os insultos, até concordo que os portugueses exploraram os brasileiros, como exploraram os angolanos, os moçambicanos, etc., aproveitando para ensinar alguma coisa pelo caminho, mas não vamos por aí. A escravatura é condenável em qualquer uma das suas formas, mas não foi uma invenção portuguesa, que eu saiba.

E continuando, eu já fui inúmeras vezes ao Brasil, onde sempre adorei ir e onde sempre me senti em casa. Até costumo dizer a brincar, que fui um erro de casting da cegonha, que era preguiçosa e me despejou no Alentejo só para não atravessar o oceano comigo no bico. Adoro o nordeste brasileiro e a forma como sempre fui recebida. Durante algum tempo sonhei que me reformava e ia viver definitivamente para lá, nunca mais tinha frio e podia ir todos os dias à praia. Era um dos meus sonhos, que entretanto, confesso já pus um bocadinho de parte. Não por causa da coisinha Luana, claro.

Sabem que mais? Continuem a ver novelas brasileiras, continuem a ir ver peças brasileiras com atores medíocres e textos fraquinhos, continuem a preferir cachaça a aguardente de medronho, continuem a comer picanha em vez de entrecosto, continuem… Tirando as novelas e as peças eu também vou continuar, seguramente.

Mas a verdade é que está na altura de também começarmos a valorizar o que é nosso e a defender o nosso nome. Porra, afinal não somos seres inferiores. Se somos tão maus porque raio é que esta gentinha quer tanto que vejamos o trabalho deles? Dá jeito não é? O euro dá jeito.

Não gostei mesmo nada da afirmação da Luana. E aposto que não fui só eu!

A Farsa

Fui ao Teatro Nacional D. Maria II ver A Farsa com uma atriz que, confesso envergonhadamente, não conhecia, a Sara Carinhas, mas que já ganhou mais uma fã.

A Farsa é um texto de Raúl Brandão centrada no ódio recalcado de Candidinha, uma mulher seca, triste e desesperada.

A Sara surge em cena nua, de roupa, mas completamente vestida de talento, de expressão. Ficamos expectantes a olhar para as transformações que o seu corpo nos mostra. A forma como se metamorfoseia na frente dos poucos espectadores que a Sala Estúdio permite, e ainda bem, porque é um texto para se viver com a atriz e não para se ver de fora.

“Vinda de um lugar fantasmagórico, uma voz grita dilacerada: ‘Ai que ma levam’ e, num ápice, o escuro profundo da sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II transforma-se num velório onde distinguimos Anacleto, viúvo que ‘berra sacudido pelo desespero’, Candidinha sentada num xaile coçado, Felícia cidadã honorária das servas de Deus, Patrícia de peito volumoso e mole, o escrivão Belisário ‘todo sebo’... são muitas as personagens em torno da morta mas todas elas acontecem num só corpo, o de Sara Carinhas, atriz, bailarina e performer que aqui explora os seus limites”, assim é apresentada a peça e assim é entendida pelos espectadores.

 

Confesso que no início quando avisam que o espetáculo terá a duração cerca de duas horas e meia, fiquei um bocadinho em pânico, mas a verdade é que as duas horas e meia passam rapidamente e de forma absorvente. Mesmo numa sexta-feira, no final de um dia de trabalho, o quinto de uma semana de trabalho, mesmo depois de uma pessoa se ter levantado às sete da manhã e ter dormido cerca de três horas, é impossível não centrar a atenção na (Candidinha) Sara Carinhas.

 

Na segunda parte somos convidados a circular pelo espaço de cena para melhor absorvermos o percurso da personagem que se move cegamente (mesmo cegamente) pelos vários nichos onde vai de alguma forma cumprindo o seu destino, é absolutamente avassaladora. A Candidinha que vê o seu sonho ruir e que vê o seu destino cada vez mais sombrio…

 

E portanto, ao contrário do que aconteceu com Tribos, adorei A Farsa, as minhas filhas adoraram e passámos um serão a três muito bom.

A Sara Carinhas é um TALENTO! A Sara é toda ela expressão, toda ela arte, é absolutamente maravilhosa. Maravilhosa. Fiquei fã e adorei.

 

Lá está, não precisamos de ir ao Brasil buscar talento de palco. O palco está na génese portuguesa, os atores portugueses são de facto animais de palco. Mais uma vez se prova.

Que pena que se fale tão pouco de teatro em Portugal. Que pena que atrizes como a Sara Casinhas não sejam o mais conhecidas possível. Como é que é possível?

Parabéns Sara Casinhas. Na próxima atuação estarei lá. Porque só poderei sair maravilhada e cheia de emoção. Como saí de A Farsa.

 

É só uma novela, mas...

É de facto só uma novela, mas confesso que ontem fiquei com os olhos marejados de lágrimas a ver a cena da Bárbara e do Jorge, da novela Mulheres, da TVI.

De facto é só uma novela, mas algumas cenas são muito reais. E a de ontem foi-o e bastante.

Primeiro quero deixar aqui a minha admiração e respeito pelos dois atores, que tão brilhantemente vestem a pele das suas personagens. À Jessica Athayde por conseguir, sendo ainda tão novinha, entrar tão bem dentro da pele de mulheres que são violentadas, agredidas e maltratadas pelos maridos. E ao Luís Gaspar, porque dificilmente encontrariam um ator melhor para aquele papel. É mais que credível e já dei por mim várias vezes com vontade de lhe bater. Coitado, aposto que muita gente olha para ele na rua e tem dificuldade em distinguir o Luís do Jorge. Ambos de parabéns, bem como quem escreve aquelas cenas. Muito bom.

Ontem fiquei mesmo chocada com a cena em que a miúda estava a fazer as malas e ele chegou e começou a falar com ela num falso tom calmo e foi tão visível o crescendo de raiva na expressão do Luís (Jorge) e o medo, desespero, sensação de animal acossado na cara da Jessica (Bárbara). E confesso, sem pudor ou vergonha, que chorei.

Não chorei só pela cena, apesar de a considerar uma das melhores da novela, a par com a da última tareia que levou a Bárbara (Jessica) ao hospital.

Quem já passou por uma situação idêntica sabe que há coisas que não se esquecem. Não fui, felizmente violentada, da maneira que a Bárbara o é, mas também fui agredida. E as lágrimas chegaram quando vi o medo e a sensação de animal acossado na cara da Jessica. Porque eu já me senti assim. A sensação de impotência, o desespero contra um agressor maior e mais forte que nós, a sensação de sermos um bicho acossado por um predador, o medo, o medo, muito medo… Um medo maior que nós, maior que o mundo, que durante muito tempo habita nos nossos sonhos, ou seria melhor dizer, pesadelos, um medo que nos deixa impotentes, que nos persegue durante muito, muito tempo, para sempre…

É impossível esquecer um pé que voa na direção da nossa cara, do nosso corpo, uma mão que se agiganta face ao nosso desespero e impotência, a dor que marca o corpo, mas muito especialmente a alma.

Podemos deixar o agressor, tirá-lo da nossa vida, mas nunca tiraremos a agressão de dentro de nós. Essa fica para sempre. Deixamos de sentir raiva, de odiar, de temer o agressor, mas a agressão ficará para sempre. Uma vítima de agressão nunca consegue apagá-la de si. Nunca se abstrai e por mais que queira, nunca consegue passar indiferente.

Toda a gente me perguntou o que me passou pela cabeça para me meter no meio de uma briga em que umas quantas mulheres de etnia cigana espancavam uma miúda que trabalhava comigo. O que me passou foi que senti a solidão, a impotência, o desespero, o medo dela perante as mãos, os pés e as pessoas que lhe batiam. O que me passou foi que eu já tinha estado do lado dela e ninguém me ajudou, porque ninguém viu. O que me passou foi ver a agressão perante alguém mais pequeno, indefeso, menos forte. Passou-me o que me passará sempre. Uma agressão é uma agressão.

Um homem que bate numa mulher não é um homem, é um cobarde, um frustrado, mal amado, mal resolvido, uma besta. Mas também é um ser inseguro, dependente emocionalmente do controlo que acha que tem o direito de exercer sobre a sua vítima, dependente da sensação de ser o mais forte, o dono da sua vítima…

Não olhem para o lado. Ao vosso redor uma mulher pode ter a sua vida em risco e precisar apenas de um olhar vosso.

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