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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

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A minha primeira morte

A minha avó ficou paraplégica muito nova, quando as minhas tias Emília e Isabel, era ainda miúdas, vítima de uma doença que nunca ninguém me soube explicar bem qual era. Ficou, não agarrada a uma cadeira de rodas, que o dinheiro não dava para tanto e nessa altura não havia estado social, mas a uma cadeirinha que o meu avô adaptou para ela e onde sempre me lembro de a ver quando ia ao Alentejo. Desde miúda sempre me disseram que eu tinha algumas coisas da minha avó Cecília (o nome que a minha mãe queria que eu tivesse e que o meu pai não deixou), coisa que sempre me deixou orgulhosa. Lembro-me de me sentarem ao colo dela e de ela me contar histórias, da sua infância, da infância dos meus tios, tias e da minha mãe, histórias de vida e com vida. Dessas histórias já não me lembro. Só me lembro dela e lembro-me sempre com muito carinho e com muita saudade. Eu teria uns quatro anos. Alguém foi lá a casa dar notícia de que a minha avó Cecília, a mãe da minha mãe estava a morrer. Nessa altura não havia a facilidade do telefone, era rara a casa que o tinha, a esse aparelho mágico que mudou a nossa vida e que passou a andar nos bolsos de todos nós. O meu padrinho ainda morava connosco, era solteiro, só mudou para a casa dele depois de casar. Fomos os três de comboio direitos a Castelo de Vide, a minha mãe, o meu padrinho Eusébio e eu, quatro anos de gente, com uma ideia muito vaga, mas mesmo muito vaga da morte. Que as pessoas iam para o céu, era o que me diziam, para junto do menino Jesus. Chegámos a casa do meu avô, o meu querido avô Álvaro, ainda a minha avó estava viva. Pediu para falar comigo e houve ali um sururu entre a minha mãe e as minhas tias e tios. Afinal eu só tinha quatro anos. Na altura não percebi o porquê de tanto alarido, era a minha avó que queria falar comigo. Qual era o problema? Entrei no quarto da minha avó e lembro-me da imagem dela deitada na cama antiga de ferro que, na altura, me parecia quase um arranha-céus de tão mínima que eu era. Alguém me ajudou a subir para a cama, dei um beijo à minha avó, senti a sua pele macia, de que ainda hoje guardo a recordação. A minha avó tinha uma missão para me confiar: “Filha, a avó vai morrer, tenho que te pedir uma coisa, para tomares conta do teu padrinho. Não o deixes voltar a entrar nas touradas, filha. Prometes que tomas conta dele?”. Claro que o prometi e senti logo ali que a morte era muito mais do que ir para o céu para o pé do menino Jesus, havia ali uma finitude que ninguém me queria esclarecer. A minha avó chamou o meu padrinho Eusébio e deu-lhe conhecimento da promessa que eu lhe tinha feito e ele aceitou ajudar-me a cumpri-la. E cumprimo-la, os dois, a pedido de uma das pessoas mais importantes das nossas vidas. O meu padrinho só voltou a entrar numa arena para retirar um amigo, colhido por um vitelo numa garraiada. Mas por ele, para ser ele a enfrentar o touro, nunca mais. A minha avó pediu-me um último beijo, foi mesmo o último… Voltei a sentir, pela última vez a sua pele macia, a carícia da sua mão na minha cara e vi pela última vez o rosto bonito da minha avó, de quem dizem que herdei os olhos verdes e as mãos compridas de unhas redondas. A morte da minha avó deu-se logo a seguir a este episódio. Hoje tenho a certeza que ela estava à minha espera, à espera de se despedir de mim, de me confiar a missão de cuidar do seu filho mais “maluco” para morrer. Mesmo que não seja verdade é nisso que quero acreditar. Como quero acreditar que morreu em paz, confiante que eu cumpriria a sua última vontade. Eu não acredito na vida depois da morte, nem nada dessas coisas, mas juro, que nos piores dias e nas piores noites, tenho a sensação do toque da mão da minha avó na minha cara. A maciez da sua pele volta a tocar-me e a dar-me o conforto que muitas vezes os vivos não me conseguem dar. Eu tinha quatro anos quando percebi que as pessoas quando morrem não vão para o céu, nem para ao pé do menino Jesus, não vão para lado nenhum, na verdade, continuam dentro de nós, nos nossos corações durante toda a nossa vida. Tenho 50 anos e há 46 que tenho a minha avó Cecília viva no meu coração e por cá continuará enquanto eu for viva.

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