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Eu e o mundo

As minhas impressões, opiniões e outras coisas acabadas em ões sobre o mundo, pelo menos o mais próximo de mim.

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O "tôtô" da minha filha

 

A minha filha mais nova nunca gostou de chucha. Na verdade ela chorava tanto que acho que foi mais nunca conseguir tê-la na boca o tempo suficiente para perceber se gostava ou não.

Mas gostava e muito de um pequeno cobertor em tom lavanda e branco, que quando começou a andar arrastava atrás dela para todo o lado. E quando digo arrastava não estou a exagerar. Ela andava pelo quintal da nossa casa com o cobertor preso por uma das pontas e não largava por nada. Eu costumava chamar-lhe o Linus, aquele miúdo dos desenhos animados do Snoopy, que também tinha um cobertor de que era inseparável.

Foi a primeira palavra que aprendeu a dizer: “tôtô”, para grande desgosto da mãe, que sou eu. A segunda palavra foi “minha”, só para reforçar o sentido de posse do cobertor: “Tôtô é minha”, resmungava sempre que alguém se metia com ela e lho tentava tirar.

A minha filha não era nada dada a brincadeiras. Tinha um mau feito enorme e franzia a testa a toda a gente que não conhecia. O oposto da irmã que era a simpatia em forma de bebé. Ainda hoje a Inês é mais difícil de “dar confiança” às pessoas do que a Sara.

O “tôtô” precisava, e muito, de ser lavado frequentemente. Às vezes já nem se percebia bem de que cor era, mas ela recusava-se completamente a largá-lo. Era preciso esperar que adormecesse, tirá-lo com muito cuidadinho, conseguir secá-lo e voltar a pô-lo no lugar antes que ela acordasse. Logo da primeira vez que acordou sem ele percebi que ela fazia concorrência a qualquer sirene de bombeiros e nunca mais arrisquei.

Também tenho que confessar que a culpa do vício com o “tôtô” foi minha. Ela era difícil de adormecer e começou a apanhar o hábito de segurar uma madeixa do meu cabelo entre os dedos indicador e polegar e esfregar. Eu odeio que me mexam no cabelo, mas odeio mesmo. Complica-me com o sistema nervoso, fico mesmo irritada. Só vou ao cabeleireiro em último recurso. Comecei por lhe pôr uma fralda de pano na mão, mas quando começou o outono, substitui a fralda pelo cobertor e ela afeiçoou-se a ele de tal maneira que só o largou já bem crescidinha.

Para onde quer que nós fossemos o “tôtô” ia connosco. Quando foi para o infantário ainda o levou durante um tempo e quando deixou de o levar, assim que chegava a casa matava saudades com muitos abracinhos.  

Ela agarrava um dos cantinhos e esfregava entre o polegar e o indicador e era assim que adormecia, ou simplesmente que se consolava quando estava triste ou em situações diferentes em que precisava de um aconchego.

A primeira vez que andou de avião, para umas férias no Brasil, já tinha uns sete, oito anos e ficou na dúvida sobre levar o cobertor com ela. Tinha medo que gozassem com ela por causa disso.

Convenci-a a meter o cobertor na mochila que ia levar no avião, onde tinha também uns livros para se entreter. Pouco tempo depois de levantarmos voo, ela abriu discretamente um bocadinho da mochila, meteu a mãozinha lá dentro e aconchegou-se com o seu fiel cobertor.

Um dos hospedeiros de bordo reparou e perguntou-me e eu lá lhe expliquei. Muito simpático ele disse-lhe para não ter vergonha, porque ele próprio também tinha um e estava tristíssimo por se ter esquecido dele em casa. Muito atencioso. Ela ficou tão feliz. Não sei se acreditou, mas ficou feliz e isso é que importa.

Aos poucos foi largando o cobertor, que foi guardado e que ainda hoje vive cá em casa. Tem quatro buraquinhos nos quatro cantos onde ela “coçava” mecanicamente sempre que adormecia, via televisão ou simplesmente queria aconchego.

O “tôtô” faz parte do crescimento da minha filha e hoje lembrei-me dele por causa de um post da Tânia Ribas de Oliveira no seu blogue.

Os blogues foram uma excelente invenção. A memória das mães não é infinita e todos os miúdos gostam de saber como eram e de escutar as suas histórias de bebés. Estes bebés de agora daqui a uns anos vão adorar ler os posts das mães.

Eu já não tenho bebés mas adoro seguir alguns destes blogues que me trazem à memória muitas histórias que se vão desvanecendo com o tempo. E acho que vou começar a registá-las. Nem que seja para que os meus netos saibam como eram as mães. 

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